ABORDAGEM DA ERGONOMIA NA SÍNDROME DE BURNOUT – ARTIGO DE REVISÃO

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INTRODUÇÃO

No âmbito do trabalho, o relacionamento com outras pessoas é uma fonte de estresse; e neste sentido, aparece em meados da década de 70 o termo Burnout, que no sentido literal significa “estar esgotado” ou “queimado” (PEREIRA, 2002).

Dessa forma, a Síndrome de Burnout (SB) e o estresse são fenômenos que expressam sua relevância na saúde do indivíduo e do ambiente de trabalho (MUROFUSE. et a.l., 2005)

Apesar de divulgada desde a década de 70, a doença é pouco conhecida no Brasil e há poucos trabalhos realizados sobre essa doença, a mesma se instala de maneira silenciosa e progressiva (GARCIA, 2003).Conforme Odorizzi (1995) e Matamoros (1997), os principais sintomas da SB são os comprometimentos físicos, psíquicos, emocionais e comportamentais, cujos fatores desencadeantes dessa síndrome são os fatores: extrínsecos os que contribuem para a geração de sentimentos de descontentamento no trabalho e nas razões externas em que se incluem salários, relações interpessoais; e nos fatores intrínsecos como realização, reconhecimento, o trabalho em si, responsabilidade, progressão na carreira e possibilidade de desenvolver os fatores inerentes ao conteúdo do trabalho (CARVALHO, 2002; RAMÍREZ, 2001).

Quando o ambiente de trabalho favorece o aparecimento da SB, observa-se maior rotatividade de funcionários dentro das empresas, absenteísmo, queda da qualidade e produtividade, incremento de licenças por problemas de saúde, baixa moral dos trabalhadores, o “desligamento psicológico”, dentre outras incidências (GARCIA,  2003).

Em face disso, a intervenção ergonômica proporciona a prevenção e tratamento da SB, abordando os aspectos do trabalho, relacionamento do homem com seu ambiente de trabalho e sua humanização; sendo obtida pela adaptação das condições laborais através de medidas antropométricas e técnicas que trabalham o relaxamento dinâmico por meio da reeducação da postura global (BARREIRA, 1989). }

O presente trabalho tem como propósito investigar acerca da intervenção da ergonomia, pode contribuir um maior embasamento científico sobre essa patologia.

MÉTODOS

O presente trabalho foi desenvolvido a partir de teses de doutorado, dissertações de mestrado e artigos científicos indexados, coletados em bibliotecas virtuais (BIREME/ MEDLINE/ LILACS/ SCIELO), periódicos e revistas científicas. Foi realizada uma busca refinada com a finalidade de selecionar artigos indexados relacionados à saúde do trabalhador mediante a presença dos descritores de ergonomia e Síndrome de Burnout nas palavras chave do registro.

ASPECTOS GERAIS E PSICOSSOCIAIS DA SÍNDROME DE BURNOUT NA SAÚDE DO TRABALHADOR

Burnout consiste em uma expressão inglesa para designar aquilo que deixou de funcionar por exaustão de energia e foi utilizada inicialmente por Brandley em 1969, mas tornou-se mundialmente conhecida a partir dos estudos de Freudenberger em 1974, que define a SB como um estado relacionado com experiência de esgotamento, decepção e perda do interesse pela atividade do trabalho que surge em profissionais que trabalham em contato direto com pessoas na prestação de serviços como uma conseqüência deste contato freqüente no trabalho (ALBALADEJO, 2004; BORGES, 2002; SILVA & CARLOTTO, 2003; JIMENEZ & PUENTE,  2002). Os profissionais cujo serviço exige um contato direto com outras pessoas apresentam maior propensão a SB; cuja definição dessa síndrome surgiu para dar explicação ao processo de deterioração nos cuidados e atenção profissional nos trabalhadores de organizações. (VOLPATO, 2003).Amorim. et. al. (1998) acrescentam ainda, que alguns pesquisadores realizaram propostas de delimitação conceitual e assim estabeleceram procedimentos e critérios para o diagnóstico diferencial. Pines. et al. (1981), correlacionaram a fadiga emocional, física e mental, sentimentos de impotência e inutilidade, falta de entusiasmo pelo trabalho, pela vida em geral e baixa auto-estima a estados que combinam com esta síndrome.

A definição mais aceita do Burnouté a fundamentada na perspectiva social-psicológica de Maslach e colaboradores, sendo esta constituída de três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho (CARLOTTO, 2002; MARTINEZ, 1997;  MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001).

A SB constitui-se num fenômeno multidimensional caracterizado pelas seguintes dimensões:

a) Exaustão emocional: pode ser entendida pela situação na qual os trabalhadores sentem que não podem se entregar mais é uma situação de esgotamento da energia dos recursos emocionais próprios, uma experiência de estar emocionalmente desgastado devido ao contato diário com pessoas com as quais necessitam se relacionar em função de seu trabalho.

b) Despersonalização: defini-se como o desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas e de distanciamento para as pessoas destinatárias do trabalho.

c) Baixa realização profissional: faz com que os trabalhadores se sintam descontentes consigo mesmos e insatisfeitos com os resultados de seu trabalho (PEREIRA, 2002; SILVA, 2003).

Maslach e Jackson (1981) ressaltam que a SB está estritamente ligada aos profissionais de saúde, que perdiam então, o interesse, empatia e o próprio respeito por seus pacientes (PEREIRA, 2002).

Vale salientar, que a SB é uma experiência subjetiva, que agrupa sentimentos e atitudes implicando alterações, problemas e disfunções psicofisiológicas com conseqüências nocivas para a pessoa e para o ambiente de trabalho, sendo que esta afeta diretamente a qualidade de vida do indivíduo (AMORIM & TURBAY, 1998). Por isso, é necessário um estudo também filosófico onde se explicita a natureza humana e, principalmente, as dinâmicas interpessoais que possam interferir no desempenho e produtividade no trabalho (PEREIRA, 2002).

No plano das relações interpessoais, quando estas são tensas, conturbadas e prolongadas, tem-se a tendência de aumentar os sintomas da SB (AMORIM & TURBAY, 1998).

Assim, mesmo com a falta de apoio no trabalho por parte dos companheiros e supervisores, da direção, ou da administração e os conflitos interpessoais com as pessoas que se atende ou seus familiares, são fenômenos característicos destas profissões que aumentam também os sintomas (PEREIRA, 2002).

Os fatores que desencadeantes do estresse no ambiente de trabalho são: ruído, iluminação, temperatura, higiene, intoxicação, clima, disposição do espaço físico para o trabalho, o trabalho noturno, a sobrecarga de trabalho, a exposição a riscos e perigos, os principais sintomas da SB são os fatores: físicos (sensação de fadiga constante e progressiva, distúrbios do sono, dores musculares, no pescoço, ombro e dorso, perturbações gastrointestinais, baixa resistência imunológica, astenia, cansaço intenso, cefaléias, transtornos cardiovasculares), psíquicos (diminuição da memória, falta de atenção e concentração, diminuição da capacidade de tomar decisões, fixações de idéias e obsessão por determinados problemas, idéias fantasiosa ou delírios de perseguição, sentimento de alienação e impotência, labilidade emocional, impaciência), emocionais (desânimo, perda de entusiasmo e alegria, ansiedade, depressão, irritação, pessimismo, baixa alta estima) e comportamentais (isolamento, perda de interesse pelo trabalho ou lazer, comportamento menos flexível, perda de iniciativa, lentidão no desempenho das funções, absenteísmo, aumento do consumo de bebidas alcoólicas, fumo e até mesmo drogas, incremento da agressividade). No entanto, é importante ressaltar que nem todos estes sintomas estão necessariamente presentes em todos os casos, pois esta configuração dependerá de fatores individuais e ambientais (ODORIZZI, 1995; MATAMOROS, 1997).

Estes sintomas podem se desenvolver em indivíduos que estejam relacionados com qualquer tipo de atividade no trabalho, no entanto, deve ser entendida como uma resposta ao estresse laboral que aparece quando falham as estratégias funcionais de enfrentamento que o sujeito pode empregar e se comporta como variável mediadora entre o estresse percebido e suas conseqüências (JIMÉNEZ & PUENTE., 1995). Esse enfrentamento é definido por França e Rodrigues (1997), como sendo o conjunto de esforços que uma pessoa desenvolve para manejar ou lidar com as solicitações externas ou internas, que são avaliadas por ela como excessivas ou acima de suas possibilidades.

Assim, esta síndrome é considerada um passo intermediário na relação estresse-conseqüências do estresse de forma que, permanece durante um longo tempo, o estresse laboral terá conseqüências nocivas para o indivíduo, sob a forma de enfermidade, falta de saúde com alterações psicossomáticas (alterações cardiorrespiratórias, gastrite e úlcera, dificuldade para dormir, náuseas) e para organização (deterioração do rendimento ou da qualidade de trabalho (SILVA, 2003).

No entanto, é preciso considerar a síndrome como processo, cujos momentos não são estabelecidos de forma clara e distinta entre uma etapa ou outra, ou de um momento ao outro.

Os valores de saúde e doença são construídos, na empresa, sob o foco da produtividade, sob os princípios que se adota de responsabilidade social e o valor que se dá à preservação das pessoas, das histórias de acidentes de trabalho e da própria cultura da organização (LIPP & MALAGRIS, 1995).

Alguns estudos evidenciam muitas variáveis organizacionais, que contribuem para situações provocadoras de reações psicológicas e psicossomáticas; cujas desordens psicológicas no trabalho constituem uma das dez freqüentes categorias de “doença” ocupacional (JACQUES, 1996).

A relação do homem com o ambiente de trabalho é origem da carga psíquica da ocupação quando o rearranjo da organização do trabalho não é mais possível, sendo a relação do trabalhador com a organização bloqueada e se inicia o sofrimento (DEJOURS, 1994).

De acordo com Aguayo (1997), ao tratar da SB em professores, relaciona seu aparecimento a uma pressão intensa e constante no trabalho, e acrescenta como medidas de prevenção, um programa preventivo baseado em grupos de apoios entre profissionais para se discutir temas relacionados, como também recomendações tais como exercícios físicos, dietas, manejo de estresse e promoção da saúde.

A partir de um estudo dos principais instrumentos de medida, Fayos, et al. (1994), concluíram em sua pesquisa que a evolução da síndrome ocupa um dos lugares mais importantes dentro de trabalhos onde se relacionam com outras pessoas; o esgotamento emocional é a dimensão mais consistente e melhor definida dentro dos quadros observados.

INTERVENÇÃO DA ERGONOMIA NA SÍNDROME DE BURNOUT

De acordo com o Ergonomics Research Society (Sociedade de Pesquisa Ergonômica), a ergonomia é o estudo do relacionamento entre o homem e o seu trabalho, equipamento e ambiente e, particularmente, a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas surgidos no ambiente laboral (GIRLING & BIRNBAUM, 1988).Ao longo dos anos a SB tem se estabelecido como uma resposta ao estresse laboral crônico integrado, por atitudes e sentimentos negativos; contudo não há uma definição unânime sobre a doença, mas existe um consenso em considerar que aparece no indivíduo como uma resposta ao estresse laboral; tratando-se de uma experiência subjetiva interna que agrupa sentimentos e atitudes que representam uma resposta negativa para o indivíduo, dado que implica alterações, problemas ergonômicos e disfunções psicofisiológicas com conseqüências nocivas para a pessoa e para o ambiente de trabalho (SCHWARTZMANN, 2004). Para enfrentar esse problema, inúmeros estudiosos sugerem a utilização da ergonomia como uma das estratégias fundamentais de prevenção, pois o ambiente laboral torna-se mais saudável quando se realiza um melhoramento dos instrumentos, equipamentos e métodos de trabalho (GIRLING & BIRNBAUM, 1988; BARREIRA, 1989; RANIERE, 1989; WICK, 1989; GROSS, FUCHS, 1990).

A prevenção da SB se dá através do aumento a variedade de rotinas, evitar a monotonia; prevenir o excesso de horas extras; dar melhor suporte social às pessoas; melhorar as condições sociais e físicas de trabalho; e investir no aperfeiçoamento profissional e pessoal dos trabalhadores (FRANÇA & RODRIGUES, 1997).

Já Phillips (1984) diz que a primeira medida para evitar a SB é conhecer suas manifestações; porém há outras formas de prevenção tais como as estratégicas individuais, as estratégias individuais referem-se à formação e capacitação profissional, ou seja, tornar-se sempre competente no trabalho, estabelecer parâmetros, objetivos, participar de programas de combate ao stress, entre outros; as estratégias grupais consistem em buscar o apoio grupal; e finalmente as estratégias organizacionais referem-se em relacionar as estratégias individuais e grupais para que estas sejam eficazes no contexto organizacional (GIRLING & BIRNBAUM, 1998).

A SB pode causar sérios prejuízos para as empresas, pois refletem diretamente na produtividade através de faltas, horas de trabalho perdidas, desperdício de material de trabalho e custos elevados em assistência médica e, além disso, pode prejudicar a imagem da empresa (PEREIRA, 2002). Assim, o interesse atual pelos efeitos e conseqüências da SB no contexto de trabalho responde a várias razões, mas principalmente aos custos econômicos derivados, tanto para os indivíduos como para as organizações (GARCÍA, 2003).

Estudos vêm sendo desenvolvidos para investigar a contribuição de variáveis de ordem física, ergonômica e psicossocial no desenvolvimento das doenças do trabalho. (LEINO, 1989; WESTGAARD, 1985)

Nesse sentido a ergonomia através de uma intervenção no ambiente de trabalho proporciona vantagens diante dos programas preventivos. Estes benefícios são: a diminuição da fadiga, do gasto energético, do estresse emocional e a redução da incidência de doenças ocupacionais (WESTGAARD, 1985).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos entender que a SB é o produto de uma interação negativa entre o local, a equipe de trabalho e os clientes.  De fato, a Organização Internacional do Trabalho reconhece que o estresse e a SB não são fenômenos isolados, mas ambos foram convertidos em um risco ocupacional significativo.

Portanto, ao considerar qualidade de vida no trabalho, de forma a englobar aspectos de bem-estar e saúde biopsicossocial, deve-se tomar medidas de prevenção e tratamento para que esses estados não afetem ao ambiente de trabalho de maneira a prejudicar a produtividade da empresa e a qualidade de vida do trabalhador.

Fica evidente a importância da ergonomia na prevenção da SB, pois a doença está diretamente relacionada com as necessidades e expectativas humanas no trabalho. O bem-estar do indivíduo, no ambiente de trabalho é também expresso através de condições favoráveis para a execução das atividades laborais. Neste contexto, vale salientar que a falta de mobiliários ergonomicamente corretos, assim como um ambiente de trabalho desagradável (ruídos, estresse, temperatura acima e abaixo dos limites ergonômicos, iluminações precárias) são fatores que favorecem o surgimento da SB.

Ausência da ergonomia no ambiente de trabalho não é visto apenas como um fator prejudicial à saúde do trabalhador, mas principalmente à empresa que despende altos custos em absenteísmo, acidentes, doenças, conflitos, abandono e desinteresse, verificado em todos os níveis de trabalho.

A qualidade de vida é uma compreensão abrangente e comprometida nas condições de vida laboral, que inclui aspectos de bem-estar, garantia da saúde e segurança física, mental e social e capacitação para realizar tarefas com segurança e bom uso de energia pessoal. Dependendo simultaneamente do indivíduo e da empresa, e é este o desafio que abrange o indivíduo e a empresa.

Como foi discutido neste trabalho, esta síndrome é um desgaste, tanto físico como mental, em que o indivíduo pode tornar-se exausto, em função de um excessivo esforço que faz para responder às constantes solicitações de energia, força ou recursos, afetando diretamente a qualidade de vida do indivíduo e, conseqüentemente, do trabalho.

O profissional fisioterapeuta pode atuar na SB através de várias medidas, sejam elas de prevenção ou de tratamento, é preciso conhecer os conceitos de tais estados na sua essência, para que não ocorram distorções como comumente acontece, referindo-se a esta síndrome como um sinônimo de estresse, quando na verdade é uma resposta do organismo a um estresse crônico. A ergonomia é uma ferramenta utilizada pelos profissionais fisioterapeutas na prevenção e combate da SB. Vale salientar que pode-se obter a prevenção e tratamento da Síndrome de Burnout através da ergonomia por processos da adaptação das condições laborais, intervindo nas medidas antropométricas e técnicas que trabalham o relaxamento dinâmico por meio de reeducação da postura global e do estresse no trabalho.

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Artigo Publicado em: 25.11.2008
Autor(a): Andrezza Pimentel Santana
Maria Dulce Gonçalves Lorena
Maria Goretti Fernandes

Fonte:Interfisio

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