CINESIOTERAPIA NO FORTALECIMENTO MUSCULAR DO ASSOALHO PÉLVICO FEMININO

0
6267

Autores: Juliana Nolasco, Letícia Martins, Marcela Berquo e Renato Alves Sandoval

O assoalho pélvico é um conjunto de partes moles que fecham a pelve, sendo formado por músculos, ligamentos e fáscias. Suas funções são de sustentar e suspender os órgãos pélvicos e abdominais, mantendo as continências urinária e fecal. Os músculos do assoalho pélvico também participam da função sexual e distendem-se em sua porção máxima na passagem do produto conceptual (OLIVEIRA & LOPES, 2006). Atualmente, entende-se como o conjunto de estruturas que dá suporte às vísceras abdominais e pélvicas (SAMPAIO et al., 1999). O assoalho pélvico consiste dos músculos coccígeos e elevadores do ânus, que conjuntamente são chamados de diafragma pélvico, que é atravessado à frente pela vagina e uretra e ao centro pelo canal anal (FREITAS et al., 2002). Os músculos levantador do ânus se divide em pubococcígeo, ileococcígeo e puborretal, os músculos bulbocavernoso, transverso superficial do períneo e o isquiocavernoso compõem o diafragma urogenital, e também a fascia endopélvica que é composta pelos ligamentos pubo-vesical, redondo do útero, uterossacro e ligamento cervical transverso e são importantes para manter a estruturas pélvicas em suas posições normais (MOORE, 1998; ZANATTA & FRARE, 2003; OLIVEIRA & LOPES, 2006). A musculatura estriada, juntamente com a fáscia endopélvica, exerce papel fundamental no suporte dos órgãos pélvicos e na manutenção da continência urinária (RIBEIRO & ROSSI, 2000).

Seus músculos são constituídos de 70% de fibras do tipo I (fibras de contração lenta) e 30% de fibras do tipo II (fibras de contração rápida). Assim as fibras do tipo I são responsáveis pela ação antigravitacional dos músculos, mantendo o tônus constante e também na manutenção da continência no repouso. E as do tipo II são recrutadas durante aumento súbito da pressão abdominal contribuindo assim para o aumento da pressão de fechamento uretral (CAMARRÃO et al., 2003; ZANATTA & FRARE,2003; OLIVEIRA & LOPES, 2006). A bexiga urinária está localizada posteriormente à sínfise púbica e anteriormente ao reto, e nas mulheres está em contato com o útero e a vagina. A bexiga é um órgão pélvico muscular côncavo que possui quatro camadas: mucosa, submucosa, muscular e serosa (adventícia). A mucosa é composta de epitélio, que diminui em espessura quando a bexiga enche-se e as células são distendidas. A camada submucosa serve para dar suporte à mucosa. A parte muscular é constituída por um músculo liso denominado detrusor, e a camada serosa (externa) é constituída de gordura e tecido conjuntivo, e aparece apenas na face superior da bexiga. (GRAAF, 1992). A uretra feminina apresenta em média quatro centímetros de comprimento e também é composta por fibras musculares lisas (esfíncter interno) e estriadas (esfíncter externo). As fibras lisas têm pouca variedade de contração espasmódica, possibilitando que se mantenha uma pressão de fechamento e, assim, a continência urinária por período prolongado sem fadiga, e as fibras estriadas está sob o controle voluntário do sistema nervoso e pode ser usado para impedir conscientemente a micção, mesmo quando controles involuntários estão tentando esvaziar a bexiga (GUYTON & HALL, 2002; ZANATTA & FRARE, 2003; OLIVEIRA & LOPES, 2006).

A submucosa constituída de tecido conjuntivo frouxo misturado com feixes de fibras musculares lisas é um elaborado plexo vascular, cria um efeito vital para o mecanismo de continência (OLIVEIRA & LOPES, 2006). Sob o ponto de vista funcional, a integridade da camada de músculo liso circundante mantém esse mecanismo, direcionando as pressões submucosas de expansão para dentro, em direção à mucosa. A integridade do músculo liso e do tecido esponjoso vascular da uretra fornece uma importante contribuição para o mecanismo de fechamento, possuindo, portanto, grande importância para a continência urinária passiva normal. As fibras de músculo estriado, extrínsecas à uretra no nível do diafragma urogenital, fornecem atividade esfincteriana reflexa e voluntária, contribuindo principalmente para a continência ativa (WEI et al., 1999).  Quando os músculos são mais requisitados do que o normal, eles são forçados a um trabalho extra para superar uma resistência ou carga. Este trabalho conduz a um aumento de força, pois o músculo se contrai e a síntese de proteínas musculares é estimulada. Após um período de descanso e recuperação, novas proteínas são construídas tornando as fibras musculares maiores em diâmetro e força (BRINCK & NERY, 2006). A força muscular é a quantidade máxima de força que um músculo ou grupo muscular pode gerar em um padrão específico de movimento e em uma determinada velocidade. O termo treinamento de força tem sido usado para descrever um tipo de exercício que requer que os músculos se movam (ou tentem se mover) (FLECK et al., 1999). O grau de benefício que um programa de treinamento de força pode transferir para o desempenho de um exercício e está muito relacionado ao treinamento de potência muscular e este está em função da velocidade de execução de movimento e da força desenvolvida pelo músculo, caracterizando assim a definição de potência como sendo a velocidade em que se desempenha o trabalho, sendo esta altamente dependente da força (SIMÃO, 2001). Muitos são os trabalhos que evidenciam a importância da força e potência muscular. Os treinamentos destas variáveis têm-se demonstrado efetivos na melhoria de várias capacidades físicas, bem como o aumento da massa muscular (SIMÃO, 2001).

 Então esses treinamentos visam à melhora na coordenação muscular e na flexibilidade o que garantirá menor risco de lesão (JUNQUEIRA ET AL., 2004). E esses ganhos de força ocorrem devido à capacidade dos músculos de desenvolverem tensão e do sistema nervoso de ativá-los, o que desencadeará um maior recrutamento de unidades motoras (MARCHAND, 2004). O diâmetro do músculo corresponde ao volume da fibra e são através de exercícios elaborados especificamente para desenvolver força que o tamanho dessas fibras musculares esqueléticas pode ser aumentado. Isso é chamado de hipertrofia (KISNER & COLBY, 2002; LEITE et al., 2004). Todos os exercícios de fortalecimento promovem: hipertrofia devido ao aumento no tamanho das fibras musculares, que acontece por aumento na síntese proteica e diminuição da degradação de proteínas, fenômeno que leva de seis a oito semanas para ocorrer; maior eficiência de recrutamento de fibras musculares pelos mecanismos de neurofacilitação (ou aprendizado motor); aumento da capacidade oxidativa e volume das mitocôndrias; aumento da densidade óssea, do conteúdo mineral ósseo e de hidroxiprolina; alterações nas células do corno anterior da medula espinhal e aumento da resistência de tendões e ligamentos (MACHADO, 2005). Como as fibras do tipo I (que representa 70% da musculatura do assoalho pélvico) são responsáveis pela ação antigravitacional dos músculos do assoalho pélvico e as do tipo II (que representa os restantes 30%) são recrutadas durante aumento súbito da pressão abdominal contribuindo assim para o aumento da pressão de fechamento uretral, os exercícios que trabalham com essa musculatura podem melhorar sua função e essa sustentação do fortalecimento muscular se deve à mudança funcional das fibras musculares (CAMARRÃO et al., 2003). A força muscular é então adquirida através da prática de exercícios específicos baseados no preceito de que os movimentos voluntários repetidos proporcionam aumento da força muscular e seus efeitos benéficos incluem desenvolvimento, melhora, restauração ou manutenção da força, da resistência, da mobilidade, da flexibilidade, do relaxamento, da coordenação e da habilidade através dos movimentos (RUBINSTEIN, 2001; HILBERATH, 2006). O fisioterapeuta tem sido um membro importante da equipe de obstetrícia durante anos, na verdade, desde 1912. Assim a terapeuta Mennie Randall junto com o obstetra J. S. Fairbairn no Hospital St. Thomas desenvolveram interesses especiais no tratamento da gravidez, parto e puerpério. Mais tarde o campo de interesse estendeu-se a casos ginecológicos (POLDEN & MANTLE, 2000).

         Por volta dos anos 50, Arnold Kegel, médico ginecologista, foi o primeiro a introduzir o treinamento da musculatura do assoalho pélvico feminino para tratar a incontinência urinária. Em seu primeiro estudo ele obteve 84% de cura de mulheres com incontinência urinária, onde o protocolo incluía palpação vaginal e observação clínica da contração voluntária da musculatura e o uso do Biofeedback para mensurar a pressão vaginal durante os exercícios. Hoje existe uma variedade de aparelhos de Biofeedback usados na prática clínica para ajudar no treinamento desta musculatura (MORKVED et al., 2002). A cinesioterapia é então, uma terapia através dos movimentos, onde estes são utilizados como forma de tratamento, tendo como base de que os movimentos voluntários repetidos proporcionam o aumento da força muscular, uma resistência à fadiga, melhorando a mobilidade, a flexibilidade e a coordenação muscular (AMARO & GAMEIRO, 2001). E baseado neste preceito das contrações repetidas, esses exercícios têm sido indicados em alguns casos de incontinência urinária, devido ao aumento do tônus das fibras musculares lentas ou tipo I (que constituem 70% e que promovam sustentação e resistência na contração muscular) e das fibras musculares rápidas ou tipo II (os 30% restantes, que promovem contrações fortes e breves) (LAYCOCK, 1994; BERNARDES et al., 2000; CAMARRÃO et al., 2003). Mas com o passar do tempo os exercícios para o assoalho pélvico foram sendo esquecidos (MORENO, 2004). A partir daí as cirurgias foram a melhor opção para o tratamento de incontinência urinária, porém às recidivas foram aparecendo com freqüência submetendo assim as pacientes as mesmas condições iniciais de perda urinária, ou até mesmo a piora do prognóstico (SOUZA, 2002). Até que no ano de 1992, a Sociedade Internacional de Continência validou cientificamente as técnicas de reabilitação do assoalho pélvico para tratamento de distúrbios perineais, e como consequência o reconhecimento e a valorização foram crescendo cada vez mais (MORENO, 2004).

A atuação do fisioterapeuta na reeducação perineal do assoalho pélvico, tem como finalidade melhorar a força de contração das fibras musculares, promover a reeducação abdominal e um rearranjo estático lombo pélvico através de exercícios, aparelhos e técnicas. Assim estes poderão ajudar a fortalecer os músculos necessários para manter a continência urinária (SOUZA, 2002). A reeducação da musculatura torna-se imperativo no programa de exercícios atribuídos para pacientes vindos sob forma preventiva ou até mesmo curativa da patologia, além de melhorar a função sexual. Porém, os melhores resultados do tratamento fisioterapêutico da incontinência urinária são obtidos nos casos leve ou moderado (MORENO et al., 2004). A cinesioterapia compreende basicamente na realização dos exercícios de Kegel que objetiva trabalhar a musculatura perineal para o tratamento da hipotonia (SANTOS, 2004). Mas estudos mostram que 30% das mulheres não conseguem exercitar corretamente a musculatura, então se preconizou que os músculos abdominais, glúteos e adutores, devem ficar em repouso ou em tensão constante na tentativa de evitar a contração conjunta (PRADO et al., 2003). Segundo Santos (2004), afirmou que a maioria das mulheres são incapazes de realizar uma contração somente pela simples instrução verbal, por isso é importante um controle palpatório intravaginal e a presença de um fisioterapeuta. E Grosse & Sengler (2002), afirmam que a informação e a conscientização representam uma fase essencial na reeducação. Segundo Moreno (2004), a contração correta dos músculos, principalmente os elevadores do ânus, tem sido muito eficaz no tratamento de incontinência urinária, apresentando melhora no controle esfincteriano, no aumento do recrutamento das fibras musculares tipo I e II, no estímulo da funcionalidade inconsciente de contração simultânea do diafragma pélvico aumentando assim o suporte das estruturas pélvicas e abdominais prevenindo futuras distopias genitais.

De acordo com Géo & Lima (2001), Souza (2002), a cinesioterapia é isenta de efeitos colaterais e morbidade, ao contrário das cirurgias. Por isso, hoje o tratamento fisioterapêutico está sendo cada vez mais utilizado devido ao seu resultado positivo no tratamento da incontinência urinária feminina, porém depende de uma boa avaliação do paciente e da escolha da técnica e parâmetro de tratamento para cada tipo de patologia que será tratada. Existem várias formas de aplicação da cinesioterapia para o tratamento da incontinência urinária feminina, dentre eles o trabalho com a bola suíça. A bola suíça é um instrumento utilizado para o retreinamento dos músculos enfraquecidos como a hipotonia dos músculos. Os exercícios são funcionais e podem ser realizados de várias maneiras, pois a bola suíça é considerada como um instrumento indispensável e intermediário ideal para os movimentos no treino dessa musculatura (CARRIÉRE & TRANZBERGER, 1999). Outro método utilizado seria os cones vaginais que foram conceituados por Plevnik, em 1985, para a tonificação da musculatura perineal (GROSSE & SENGLER, 2002; MORENO & SANTOS, 2004). Os cones são pequenas cápsulas de pesos diferentes, de uso individual, que se introduz na vagina para fornecer resistência e feedback sensorial nos músculos do assoalho pélvico à medida que eles se contraem (SIZINO et al., 2003; MORENO, 2004; SANTOS, 2004). Os exercícios realizados com os cones são os de Kegel, trabalhando assim contrações perineais. São encontrados de forma e tamanho iguais, porém de pesos diferentes que variam de 25g a 75g (MORENO, 2004).

Quando o cone de peso adequado é inserido na vagina, ele tende a deslizar causando uma sensação de perda que irá proporcionar um Biofeedback tátil e cinestésico, fazendo com que o assoalho pélvico se contraia de forma reflexa na tentativa de retê-lo (SOUZA, 2002). De acordo com Moreno (2004) e Santos (2004), o uso de cones vaginais além de aumentar força muscular torna a atividade fisiológica do assoalho pélvico mais coordenada com contrações, aumentando assim o recrutamento de unidades motoras, tanto do tipo I quanto do tipo II. As indicações para este tratamento são: IU de esforço, urge-incontinência, a.p. fraco, pós-parto, disfunção sexual, pouca propriocepção pélvica e incoordenação da contração pélvica. As contraindicações são: presença de infecções no trato-urogenital, durante a menstruação, paciente com distúrbio psiquiátrico, durante ou imediatamente após relação sexual, gravidez, retenção/obstrução urinária. Já o Biofeedback descrito por Kegel em 1948 é essencialmente toda e qualquer abordagem que o fisioterapeuta utiliza para conscientizar um paciente de seu corpo e suas funções, sejam estímulos táteis, visuais, auditivos ou elétricos (perineômetro, toque digital ou cones vaginais). Então é um aparelho que mensura, avalia e trata as disfunções neuromusculares, sendo eficiente na avaliação dos músculos por monitorar os tônus em repouso, a força, a sustentação e outros padrões de atividade, mostrando-se efetivo na orientação da paciente a melhorar as contrações voluntárias dessa musculatura, favorecendo também o treino do relaxamento (MORENO, 2004). Enfim, a cinesioterapia compreende exercícios para a normalização dos tônus musculares, sendo empregada tanto para o fortalecimento de áreas hipotônicas como para o relaxamento de áreas hipertônicas (GROSSE & SENGLER, 2002; MORENO, 2004).

MÉTODOS

      Esta pesquisa é uma revisão da literatura baseada na busca de livros e artigos nacionais e internacionais, datados de 1985 a 2006, nos idiomas português, espanhol e inglês. Realizou-se ainda levantamento junto a sites de busca na área da saúde como: Medline, Pubmed, Scielo, Lilacs e Biblioteca Cochrane. Os descritores adotados foram: cinesioterapia, fortalecimento muscular, assoalho pélvico feminino, incontinência urinária. Os descritores adotados em espanhol foram: ejercicios, fuerza muscular, diafragma pélvico, incontinência urinaria. Os descritores adotados em inglês foram: Kinesitherapy, muscle strengthening, pelvic floor female, urinary incontinence.

DISCUSSÃO

      No levantamento literário pôde-se observar que a cinesioterapia de acordo com o médico ginecologista Arnold Kegel, em 1948, é um importante recurso utilizado pela fisioterapia uroginecológica para acelerar os processos de recuperação, evidenciando resultados positivos quanto ao restabelecimento de força. Os critérios adotados por grande parte dos estudiosos, para considerar uma resposta positiva sobre os efeitos da cinesioterapia do assoalho pélvico para ganho de força muscular e consequentemente um tratamento eficaz para incontinência urinária, foram baseados nos trabalhos desenvolvidos por Kegel, em 1948. Seus relatos e eficácia do tratamento contribuíram para que pesquisadores de todo o mundo passassem a utilizar as técnicas de cinesioterapia para fortalecer a musculatura pélvica de mulheres que desencadeassem incontinência urinária de esforço (MORKVED & BO, 1996). De acordo com Sengler & Grosse (2002), a reeducação do períneo agrupa diferentes técnicas de cinesioterapia aplicada com objetivo de melhorar a qualidade e o controle da musculatura estriada do diafragma pélvico. Mas Bernardes et al. (2000), a cinesioterapia é um tratamento efetivo, desde que a motivação da paciente também seja trabalhada para assim promover a melhora ou cura da incontinência urinária por até mais de cinco anos.

Segundo Oliveira et al. (2004) as fases da cinesioterapia seguem a sequência de aumento do músculo levantador do ânus, conscientização e isolamento dos músculos agonistas e antagonistas, aumento da força muscular e da ação reflexa dos músculos durante as atividades de vida diárias. Assim concluiu que é fundamental que todas as mulheres tenham consciência da musculatura e mesmo sem sintomas clínicos de incontinência urinária elas deveriam se submeter a cinesioterapia destes músculos diariamente. Bernardes et al. (2000) realizaram um estudo comparativo entre cinesioterapia e eletroestimulação endovaginal para o tratamento da incontinência urinária de esforço genuína, concluindo que 71,4% das pacientes ficaram sem sintomas e 28,6% com perda leve de urina no grupo de cinesioterapia. Já no grupo de eletroestimulação 28,6% das pacientes ficaram sem sintomas, 57,1% com perda leve e 14,3% com perda moderada de urina. Concluíram então que tanto a cinesioterapia quanto a eletroestimulação endovaginal se mostraram efetivas no tratamento da incontinência urinária de esforço genuína, porém, a cinesioterapia para reforço perineal apresentou uma tendência para ser o tratamento de escolha. Burgio et al. (1985) em seu estudo compararam a efetividade dos exercícios da musculatura pélvica usando o feedback verbal e o aparelho de Biofeedback em pacientes com incontinência urinária e em seus achados encontraram que o grupo com Biofeedback teve 76% de redução de incontinência urinária e o grupo de feedback verbal teve redução de 50%, concluindo a eficácia dos exercícios da musculatura pélvica utilizando os dois métodos. Zacchi et al. (2001) fizeram um estudo com o objetivo de comprovar a eficácia da cinesioterapia na restauração da musculatura perineal de mulheres, sem distinção de faixa etária, com incontinência urinária de esforço. O período de tratamento foi de três meses, onde foram realizadas 150 contrações perineais por sessão.

Este estudo concluiu que a cinesioterapia é sim eficaz na recuperação do tônus musculares e força que estavam diminuídas. Mas apesar dos resultados indicarem ganhos satisfatórios de força e diminuição ou até a ausência da perda de urina, um tempo maior de treinamento poderia demonstrar resultados mais satisfatórios. Fergusan et al. (1990) mostraram a relação entre o crescimento significante na força muscular e a queda da incontinência urinária utilizando um programa de treinamento de 6 semanas. No final do primeiro ano somente 50% do todo continuaram os exercícios e 25% mostraram melhora significante da perda urinária. Wells et al. (1990) realizaram uma pesquisa de revisão bibliográfica procurando por estudos de exercícios de cinesioterapia da musculatura do assoalho pélvico utilizados para pacientes com incontinência urinária de esforço. O levantamento abrangeu 22 estudos, de 1952 a 1990, onde foram ressaltados e citados alguns estudos. Harrison (1979) apud Wells et al. (1990), estudou um grupo único com 212 mulheres pós-menopausadas com incontinência urinária, realizando exercícios de 4 contrações perineais mantendo 4 segundos cada, a cada 1 hora. Resultou-se em 93% de cura ou melhora e 7% de fracasso. Heendrickson (1981) apud Wells et al. (1990), separou um grupo único com 15 mulheres, de 40 a 60 anos, com incontinência urinária, realizando progressão de até 60 contrações por dia durante 20 segundos cada, resultando em 89% de melhora significativa.

Mohr et al (1983) apud Wells et al. (1990), em grupo único com amostra de 46 mulheres, de 42 a 92 anos, com incontinência urinária e com uso diário de estrógeno, realizaram 53 minutos por dia de cinesioterapia, sendo 10 minutos a cada 3 ou 4 horas, resultando em 96% de alívio dos sintomas. Shephered et al. (1983) apud Wells et al. (1990), separou em seu estudo dois grupos randomizados de 22 mulheres de 23 a 67 anos com incontinência urinária. O primeiro grupo foi submetido somente a exercícios e o segundo utilizou-se dispositivos de resistência mensurando o resultado com o diário miccional e com o perineômetro. Houve 55% de cura ou melhora da incontinência urinária de esforço no grupo de exercícios e 91% de melhora ou cura no grupo de exercícios com dispositivo de resistência. Casiledden et al. (1984) apud Wells et al. (1990), com uma sequência randomizada de 19 mulheres de 23 a 85 anos com incontinência urinária, aplicaram 80 vezes os exercícios por dia com ou sem dispositivo de resistência, obtendo 94% de cura ou melhora dos sintomas sem diferença significante para o uso de dispositivo. Burgio et al. (1985) apud Wells et al. (1990), com grupo único de 19 mulheres na faixa etária de 65 a 86 anos realizou 50 exercícios por dia com contrações de 10 segundos cada, utilizando Biofeedback. Obtiveram então redução de 82% em média da frequência incontinência urinária. Burgio et al. (1986) apud Wells et al. (1990), dividiu dois grupos randomizado de 24 mulheres na faixa etária de 29 a 64 anos com incontinência urinária.

Utilizaram instrumento de Biofeedback e feedback verbal, onde obtiveram 76% de melhora dos sintomas urinários com aparelho de Biofeedback e 51% com feedback verbal. Henderson et al. (1987) apud Wells et al. (1990), dividiu dois grupos de faixas etárias diferentes e realizou exercícios de 100 contrações de 10 segundos, resultando em 80% de cura de incontinência urinária em jovens e 67% de cura em idosas. Benvenutri et al. (1987) apud Wells et al. (1990), em um grupo único de 26 mulheres com incontinência urinária, realizou 120 contrações diariamente, intercalando 10 contrações mantidas de 5 a 30 segundos, resultando em 32% de cura. Neste levantamento bibliográfico então Wells et al. (1990) concluíram que os resultados são limitados. Observaram, entretanto que os exercícios da musculatura são seguros e por esta razão foram considerados como tratamento apropriado para incontinência urinária de esforço. Porém encontraram muitas falhas, pois poucos estudos relataram os detalhes técnicos utilizados, como o nível e a intensidade que precisam ter os exercícios para obter resultados positivos e quais fatores os influenciariam. Além disso, não definiram se o sucesso do tratamento varia de acordo com diferentes graus de severidade. Muitos estudos ainda preconizam a importância e eficácia da cinesioterapia durante a gestação.

Moreno (2004) diz que a cinesioterapia é um recurso fisioterapêutico mais indicado para gestantes, pois é um método que não possui contraindicação, além de ser de baixo custo e fácil aplicabilidade. Morkved & Bo (1996) estudaram o efeito do fortalecimento da musculatura após o parto em 132 mulheres, resultando assim no aumento da força desta musculatura mostrando a importância da motivação e acompanhamento efetivo do fisioterapeuta para o fortalecimento. Sampselle et al. (1998) avaliaram os efeitos dos exercícios da musculatura nos sintomas de incontinência urinária e da força desta musculatura em primigestas durante e após o parto. Concluíram que a prática da cinesioterapia resultou em redução dos sintomas de incontinência urinária no final da gestação e após o parto, além de uma recuperação muscular perivaginal com maior rapidez.

CONSIDERAÇÕES

      Ao término deste estudo pode-se concluir que a cinesioterapia do assoalho pélvico feminino já se tornou um importante complemento para inúmeros programas de tratamentos utilizados na fisioterapia uroginecológica. Percebe-se o quanto o uso da cinesioterapia, utilizado durante as diferentes fases da reabilitação, ainda é relativamente polêmico. As divergências quanto à efetividade na aplicação de um protocolo cinesioterápico no fortalecimento de músculos saudáveis são bem maiores quanto aquelas encontradas em músculos acometidos por lesão e/ou fraqueza. A difícil determinação quanto a sua efetividade faz-se também, pela metodologia falha apresentada por muitos dos artigos pesquisados, devido a não especificação das técnicas utilizadas, dentre elas, a intensidade e nível dos exercícios utilizados para a obtenção de resultados positivos de acordo com o grau de cada tipo de patologia. Muitos autores sugerem que a prática da cinesioterapia possa favorecer o prognóstico de lesões e patologias que acometem o assoalho pélvico, por promover aumento da força muscular.

      Porém, pouco se sabe quanto à eficácia da cinesioterapia somente como medida preventiva durante o decorrer do desenvolvimento feminino. Porém, mesmo mediante a todas as metodologias falhas, conclui-se que a prática dos exercícios fisioterápicos para reeducação e fortalecimento dos músculos se tornam essenciais para toda a vida, podendo ser aplicado sozinho ou em conjunto com técnicas de eletroestimulação e Biofeedback, compondo um programa completo de tratamento, treinamento e reabilitação.

REFERÊNCIAS

AMARO, J. L., GAMEIRO, M. O. O. Incontinência Urinária: tratamento não cirúrgico e cinesioterapia. v l1. Belo Horizonte: Atheneu, 2001.
BERNARDES, N. O. et al. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. v 22, n 1; Rio de Janeiro, jan/fev 2000.
BERNARDES, N. et al. Métodos de Tratamento Utilizados na Incontinência Urinária de Esforço
Genuína: Um Estudo Comparativo entre Cinesioterapia e Eletroestimulação Endovaginal.
Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. 22(1); 281-90, 2000. BRINCK, NB. NERY, TP. O treinamento de potência muscular em membros inferiores e a possibilidade do aumento de saltos em bailarinos contemporâneos. 2006. Disponível em: <www. jvianna.com.br>.
BURGIO, K. L. et al. Urinary Incontinence in the Elderly, 1985.
CAMARRÃO, S. et al. Avaliação da Eletroestimulação na Terapêutica da Incontinência Urinária de Esforço Feminina. Revista de Ginecologia e Obstetrícia; 14(4); 166-69, 2003. CARRIÉRE, B.,TRANZBERGER, R., Incontinência. São Paulo: Manole, 1999.
DANGELO, J.G.; FATTINI, C.A. Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar. 2 ed. São Paulo:
Atheneu, 2000.
ETIENNE, M.A.;WAITMAN, M.C. Disfunções Sexuais Femininas: a fisioterapia como recurso
terapêutico. São Paulo: LMP, 2006.
FERGUNSON, K. L. et al. Stress urinary incontinence: effect of pelvic muscle exercise. Obstetrics & Gynecology. v 75, n 4, april 1990.
FLECK, J. et al. Fundamentos do Treinamento de Força Muscular. 2 ed. Porto Alegre, Artmed,
FREITAS, F. et al. Rotinas em ginecologia. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.
GÉO, M. S., LIMA, R. S. B. C., Incontinência Urinária e Fístulas Urogenitais. 2 ed. Rio de Janeiro:Medsi.2001.
GRAAF, K. M. V. Human Anatomy. 3 ed. Dubuque, IA: WCB, 1992.
GROSSE, D., SENGLER. J., As Técnicas da Reeducação Perineal. São Paulo: Manole 2002.
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 10 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.
HILBERATH, E. C. Exercícios Perineais Supervisionados e cone vaginal no tratamento da
Incontinência Urinária Feminina. 2006. Disponível em: <www.biblioteca.unesp.br>.
JUNQUEIRA, R. T. et al. Efeitos do Fortalecimento Muscular e sua Relação com a Atividade
Funcional e a Espasticidade em Indivíduos Hemiparéticos. Revista Brasileira de Fisioterapia,v 8; n 3; 247-52. 2004.
KISNER, C.; COLBY, L. Exercícios Terapêuticos: fundamentos e técnicas. 3 ed. São Paulo: Manole; 2002.
LAYCOCK, J.; Pelvic muscle exercises: physiotherapy for the pelvic floor. Urol Nurs. 14;
136-40. 1994.
LEITE, R. et al. Efeitos do treinamento de força sobre o desempenho de resistência muscular.
Revista Digital, Buenos Aires, Ano 10, n 75, ago, 2004. Disponível em: <www.efdeportes.
com>.
MACHADO, A. Análise da força muscular em mulheres praticantes de musculação na fase
menstrual e pós-menstrual. 2005. Disponível em: <www.ucb.br>.
MARCHAND, E. Melhoras na força e hipertrofia muscular, provenientes dos exercícios resistidos. Revista Digital Buenos Aires, Ano 8, n 57, fev, 2003. em: <www.efdeportes.com>.
MOORE, K. L. A Pelve e o Períneo. 3 ed.,Rio de Janeiro, Ed. Guanabara Koogan,1998.
MORENO, A. L. Fisioterapia em Uroginecologia. São Paulo: Manole, 2004.
MORENO, A. L. et al. Eletroestimullação Funcional do Assoalho Pélvico. S.P: Manole, 2004.

Fonte: Site Pélvico e Endometriose

SEM COMENTÁRIOS

O QUE ACHOU DESTE CONTEÚDO? DEIXE SEU COMENTÁRIO.

*