CONHEÇA OS AVANÇOS NOS TRATAMENTOS DAS DOENÇAS AUTOIMUNES

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Cientistas buscam alternativas mais eficazes para tratar pacientes em estágios avançados de enfermidades como a psoríase e a artrite reumatoide, doenças autoimunes. Novos remédios biológicos, intervenção genética e na flora intestinal estão entre as opções que vêm sendo testadas

Pensilvânia (EUA) e Brasília — “A gente vira uma ferida completa. Fica sem condições de fazer muita coisa, de interagir, de trabalhar, até de pedir ajuda.” Há oito meses, o próprio corpo de Elias Barros de Magalhães o levou a essa condição. Não foi a primeira vez. Paciente de psoríase há quase 22 anos, o goiano de 59 enfrenta crises mais graves da doença autoimune desde 2000. São, em média, duas por ano, o que o afastou do trabalho de carteira assinada. Concilia bicos com a preocupação de manter sob controle uma enfermidade que, na sua versão mais autodestrutiva, também desafia cientistas.

O resultado de um sistema imunológico desequilibrado é crônico. O tratamento é igualmente desafiante. Faz umas décadas que começaram a ser exploradas as terapias biológicas, (…) que revolucionaram o tratamento de doenças utilizando porções do sistema imunológico”, diz Leandro Aldunate, gerente médico da Janssen na Área de Imunologia para a América Latina. Diferentemente de um medicamento sintético, o biológico surge de mecanismos vivos, em um processo de fabricação mais minucioso. Tem moléculas maiores, como anticorpos e proteínas — uma das razões para a administração por injeção ou infusão —, e desencadeia respostas mais complexas do sistema de defesa.
As opções de tratamento começaram a surgir na década de 1980, com medicamentos para complicações hoje bastante incidentes, como a insulina humana produzida em cultura de uma bactéria geneticamente modificada e usada por diabéticos. No caso das doenças autoimunes, a indicação geralmente é para os casos mais avançados, quando o corpo não responde mais às terapias tradicionais. E não são poucos os pacientes nesse estágio. Estima-se, por exemplo, que 30% das pessoas com psoríase desenvolvem a condição debilitante da doença, o mesmo problema enfrentado por 30% a 50% dos indivíduos com artrite reumatoide 10 anos após a descoberta do problema. Juntas, essas duas doenças acometem cerca de 200 milhões de pessoas no mundo.
Preceptor da Residência de Reumatologia do Hospital de Base do Distrito Federal, Rodrigo Aires Corrêa Lima conta que, quando tratados com remédios biológicos, pacientes com artrite reumatoide avançada têm condições de se manter produtivos. “Mesmo mais dispendiosos, esses medicamentos são uma economia no sentido da efetividade. Evitam que as pessoas tenham pés e mãos tão comprometidos a ponto de terem que usar próteses, por exemplo. Também previnem comorbidades, como a osteoporose e doenças cardiovasculares”, explica.
Segundo o médico, há trabalhos científicos indicando que mudanças na flora bacteriana intestinal poderiam funcionar como uma intervenção clínica. “Mas ainda não há nada consistente para o controle da doença. É uma área promissora, mas não podemos fazer uma recomendação formal”, pondera. Annalisa Pianta, do Hospital Geral de Massachusetts (EUA), e colegas da instituição se esforçam para que a solução chegue aos consultórios. Em um trabalho divulgado, em 26 de junho, no The Journal of Clinical Investigation, eles sugerem que a artrite reumatoide é desencadeada por reações do corpo à presença de bactérias intestinais.

A equipe encontrou em mais de 50% dos pacientes estudados duas proteínas derivadas de tipos comuns de bactérias do intestino que evocam as reações imunes: a N-acetil-glucosamina-6-sulfatase (GNS) e a filamina A (FLNA). “A identificação de pacientes com essas respostas de anticorpos pode permitir o ensaio e o desenvolvimento de formas adjuvantes de tratamento, como o uso de antibióticos segmentados e alterações na dieta”, ressaltam, em comunicado. Ainda não está claro, porém, como se dá essa resposta desequilibrada do corpo.

Edição de DNA

Recorrer a técnicas de edição genética também desponta como uma área de pesquisa promissora para as enfermidades autoimunes graves. A interação com o DNA serviria para avaliar se a doença autoimune vai se desenvolver ou para escolher o medicamento mais indicado. James T. Elder, professor de dermatologia da Escola de Medicina da Universidade de Michigan (EUA), porém, avalia que há um longo caminho a percorrer no caso da psoríase. Segundo ele, apenas 5% dos genes relacionados à doença são alvo de remédios existentes. “Os melhores tratamentos resultarão da compreensão dos outros genes intocados”, ressalta.
James T. Elder é autor principal de um artigo divulgado, em 20 de julho, na revista Nature Communications, em que ele e colegas descrevem como fizeram uma espécie de arquitetura genética da psoríase a partir dos dados de 39 mil pessoas. Foram identificados mais 16 marcadores genéticos da doença, chegando a um total de 63. Segundo a equipe, duas vias parecem mais promissoras para terapias: os genes IL-23 e HLA — cada um tem sete sinais biológicos de psoríase. “Nós conseguimos apontar caminhos relacionados à doença, bem como as direções certas para os alvos de genes”, comemora o investigador.

Interceptação

Uma terceira área que está sendo explorada por cientistas é o uso de medicamentos biológicos para intervir antes do estágio crítico da reação autoimune. “Podemos testar qual é o estágio da doença e colocar anticorpos para agir, fazendo uma espécie de interceptação”, resume Mark Cunningham, responsável pelas atividades estratégicas e operacionais da Área Terapêutica de Imunologia da Janssen. A farmacêutica é uma das protagonistas do avanço dos medicamentos biológicos, com 24 centros de pesquisa e desenvolvimento, sendo o maior em Malvern, distrito de Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Segundo Mark Cunningham, um dos principais motes do trabalho é fazer com que as abordagens se tornem cada vez mais individualizadas. “Pesquisadores dizem que, no futuro, teremos a cópia digital de cada paciente e testaremos virtualmente os medicamentos antes de prescrevê-los”, diz. “Antes disso, porém, existem vários ciclos de evento dessas doenças que precisamos compreender.”
Mark Cunningham, responsável pelas atividades estratégicas e operacionais da Área Terapêutica de Imunologia da Janssen
Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br

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