DOR NA CANELA (CANELITE) TEM TRATAMENTO

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A dor nas pernas é uma queixa muito comum em atletas, especialmente corredores. No entanto, também é descrita nos seguintes esportes:  atletismo, tênis, voleibol, beisebol, dança, esqui na neve, levantamento de peso, remo, golfe, hóquei, futebol, futebol americano, basquete, entre outros . Diante de um paciente jovem atleta queixando-se de dor nas pernas, devemos pensar em três principais diagnósticos diferenciais: periostite, fratura de estresse e síndrome compartimental crônica.

Panorama dor na canela

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A Periostite ou  Síndrome do estresse tibial medial é classicamente definida como uma condição que produz dor medial na perna devido a exercício de corrida ou marcha repetitiva – lesão por esforço repetitivo/sobrecarga.

Esta condição limita-se a inflamação musculotendinosa, devendo-se excluir fratura de estresse e alterações isquêmicas/síndrome compartimental. Causas mais raras incluem síndrome compressiva do nervo fibular, síndrome compressiva da artéria poplítea, trombose venosa, neoplasias, infecções, fraturas, alterações da fáscia, espasmo muscular.

O termo popular “canelite”, e seu equivalente em inglês “shin splint”, descrevem apenas o quadro de dor na perna desencadeada pelo exercício. Facilmente confundida com dor anterior por insuficiência dos músculos tibial anterior ou extensor dos dedos, que realizam a dorsiflexão e extensão dos dedos (levanta a ponta do pé para cima).

Atualmente acredita-se que há variadas lesões de estresse tibial, inclui-se tendinopatia, periostite, remodelamento periostal e reação de estresse da tíbia, sendo que a fratura de estresse da tíbia seria uma complicação das reações de estresse. Disfunção dos músculos tibial posterior, tibial anterior e solear podem estar associadas a esta síndrome.

Acredita-se que a musculatura enfraquecida reduz a absorção de choque das extremidades inferiores e permite a redistribuição de forças para o periósteo e osso, aumentando o estresse sobre determinados pontos focais. A fadiga muscular observada nas situações de sobrecarga física contribui para o processo.

QUADRO CLÍNICO

CANELITE

Geralmente, o paciente refere uma dor vaga e difusa na perna, na porção medial distal da tíbia. Na fase inicial, a dor é pior no começo do exercício e gradualmente melhora durante o treino e após cessar o exercício. Entretanto, na fase tardia, a dor pode ocorrer em  repouso.

Deve-se avaliar a rotina semanal de exercícios do atleta, inclusive terreno de treino, calçados, intensidade, ritmo, distância percorrida.

Os fatores mais comuns na etiologia da “canelite” são:

  • aumento súbito e desproporcional do volume de treino (freqüência, intensidade, duração e velocidade)  sem o adequado reforço muscular na parte anterior da perna, para suportar esta mudança na sobrecarga mecânica (em inglês “to much, too fast”). Ou seja, a musculatura não está forte o suficiente para responder ao aumento de sobrecarga.
  • sexo feminino, sendo que o gênero aumenta também o risco de progressão para fratura de estresse
  • lesões prévias em membros inferiores
  • distância de corrida superior a 20 milhas (32 km)  por semana
  •  vícios posturais ex. descarga de peso inadequada (principalmente na ponta do pé), passadas longas

pé hiperpronado

  •  alterações biomecânicas: genu varo, genu valgo, torção tibial, anteversão femoral, discrepância de membros inferiores, anormalidades arco plantar, hiperpronação articulação subtalar.
  •  calçados inadequados
  •  superfície de treino inadequada (terrenos rígidos e íngremes)
  •  fraqueza muscular, inclusive dos estabilizadores quadril e pelve – “Core”.
  • alteração flexibilidade miotendínea e desbalanço muscular, principalmente isquiotibiais, quadríceps, tríceps sural.
  • variações na inserção muscular;
  •  inadequado preparo físico.
  •  lesões prévias em membros inferiores, incluindo as seguintes estruturas: músculos, partes moles e óssea da coluna, pelve e extremidade.

CANELITE TEM TRATAMENTO? 

O plano terapêutico de reabilitação deve ser o mais individualizado possível e depende da avaliação criteriosa, dos achados encontrados no exame físico, da gravidade da lesão, da intensidade, frequência da dor do paciente. Sendo fundamental descartar fratura de estresse quando suspeita diagnóstica, condição que necessita tratamento mais agressivo.

Recursos no Tratamento da pessoa com dor

tratamento paciente com dor crônica

As possibilidades terapêuticas incluem:

FASE AGUDA

– Repouso
A primeira medida terapêutica a se adotada é o repouso relativo e cessação dos esportes por um período de 2- 6 semanas, dependendo da severidade dos sintomas. Em alguns casos, pode-se adotar redução do volume e intensidade das atividades físicas até o nível que não provoque a dor.
– Tratamento medicamento: analgésicos (paracetamol, dipirona, viminol) e anti-inflamatórios
– Dessensibilização com meios físicos
Crioterapia – Gelo 15-20 minutos, diretamente na área afetada, após o exercício.
Modalidade de calor profundo (ultra-som, fonoforese), mobilização partes moles e  estimulação elétrica podem ser usadas.

FASE SUBAGUDA
– Mudança rotina de treino e abordagem alterações biomecânicas

REDUZIR  50% da frequência, intensidade e distância de corrida semanal ou redução do volume e intensidade até o nível que não provoque a dor. O paciente deve estar ciente de que a presença da lesão aumenta o risco de progressão para fratura por estresse.

EVITAR correr em colinas, terrenos inclinados e/ou rígidos
“CROSS-TRAINING” intercalar treino com exercícios de baixo-impacto (natação, corrida em piscina, elíptico, bicicleta ergométrica. Exercícios aquáticos ou bicicleta ergométrica podem ser utilizadas para manutenção do condicionamento cardiorrespiratório.

AQUECIMENTO Por exemplo: caminhar por pelo menos cinco minutos antes de iniciar a corrida

USAR calçados de corrida adequados à pisada e à forma e ao tamanho do pé, solados e palmilhas que absorvem impacto, contra-fortes firmes que estabilizem o calcanhar.

ALTERNAR CALÇADOS, especialmente se um par estiver úmido

TROCAR Tênis de corrida a cada 250-500 milhas (após esta distância, os calçados perdem 40% da capacidade de absorver impacto e oferecer suporte).

USAR palmilhas quando necessárias,

DICAS alimentação equilibrada e  de higiene do sono, na busca do sono reparador.

EVITAR  aumentos bruscos na intensidade e duração dos treinos. evitar excesso de treino “overtraining”,

CORRIGIR  compensações de lesões prévias,

RESPEITAR  períodos de descanso para reparação musculoesquelética,

CINESIOTERAPIA: seguir planejamento de treino, com atividades de preparo físico, alongamento, fortalecimento muscular, equilíbrio miofascial e adequação dos vícios posturais.

Ressalta-se a necessidade de alongamentos diários de panturrilha e exercícios excêntricos de panturrilha para prevenção fadiga muscular. Além disso, enfatiza-se a necessidade de fortalecimento do músculo tibial anterior e os outros músculos que controlam a inversão e eversão do pé.

Os pacientes também se beneficiam de exercícios terapêuticos de fortalecimento dos músculos estabilizadores tronco e pelve “CORE”, melhorando a biomecânica da corrida e prevenindo lesões por sobrecarga.

TERAPIAS MANUAIS não invasivas para reduzir tensão muscular e liberação miofascial, devendo corrigir disfunções de toda cadeia cinética (coluna, articulação sacroilíaca, pelve, desbalanços musculares, etc). Há uma variedade de técnicas, incluindo osteopatia, quiropraxia, manipulação fascial – Stecco, entre outros. O objetivo destas terapias é restaurar a amplitude de movimento normal, promover simetria dos músculos e tecidos moles, restaurando a unidade funcional da articulação.

TREINO PROPRIOCEPÇÃO e EQUILÍBRIO, com objetivo de reaprendizado neuromuscular, aumentando a eficiência da articulação e dos músculos estabilizadores, ajudando o corpo a adequar-se a superfícies irregulares.

REPOSIÇÃO Cálcio, vitamina D e hormonal se indicado, particularmente em mulheres

 

ÓRTESES E MEIOS AUXILIARES  indicados em casos severos e fraturas

 

TERAPIA POR ONDAS DE CHOQUE EXTRACORPÓREA (ESWT) pode ser indicada para tratamento de lesões prévias associadas, inclusive tendinopatias de tornozelo e pé, fasciíte plantar e tendinite aquiles.

AUTO-CUIDADO: auto-liberação miofascial, auto-alongamentos,

TAPING

Procedimentos de Reabilitação – Mesoterapia e  Infiltrações periarticular, quando indicado.

Procedimentos Terapêuticos de Reabilitação – Minimamente invasivos: Acupuntura, Inativação dos pontos gatilhos miofasciais ativados, Bloqueio Neuromuscular com Toxina Botulínica (Ex. Botox), proloterapia, injeção autóloga de sangue, injeção de plasma rico em plaquetas

Procedimentos cirúrgicos
Casos refratários ao tratamento de reabilitação podem ser candidatos a cirurgia de fasciotomia posterior. Além disso, hastes intramedulares podem ser usados em caos de fratura de estresse.

Por: Maike Heerdt ( Médica Fisiatra – Dor e Reabilitação )

Fonte: Dor tem Tratamento

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