FISIOTERAPIA AQUÁTICA NA ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA (ELA)

0
1295

Resumo:o objetivo da prática de hidroterapia por pacientes com esclerose lateral amiotrófica dá-se pela facilitação dos movimentos trazida pela água aquecida, o que lhes permite o trabalho funcional.

Segundo a literatura, a principal queixa inicial apresentada é a fraqueza muscular, que ao exame físico se revela como amiotrofia, redução de força muscular e miofasciculações. Deste modo, a fisioterapia motora, respiratória, e a fisioterapia aquática, devem ter início logo que o paciente apresenta esses sintomas iniciais da doença, a fim de reduzir os índices de quedas, as contraturas, as dores articulares, os efeitos da imobilização e os problemas respiratórios, além de prevenir a atrofia muscular por desuso e os danos por excesso de uso.

Segundo Halstead et al (1985), em estudo com pacientes com Síndrome Pós-Poliomielite, os mesmos programas de exercícios não devem ser prescritos para todos os indivíduos igualmente e su­gere exercícios com níveis de intensidade diferenciados e frequência e duração dos exercícios para os pacientes baseados em um sistema de classificação individual.

Fowler (2002), fala que os indivíduos com DNM terão uma resposta variável ao treinamento dependendo de seu grau de fraqueza, da progressão da doença, de seu nível de fadigabilidade e de seu condicionamento físico. Relata ainda que os exercícios dirigidos têm como objetivo melhorar o desempenho funcional e atividades diárias, proporcionando assim uma melhora na qualidade de vida.

Johnson & Kairmann (1988), em busca de soluções para pacientes que apresentam incapacidades devido a doença degenerativa crônica e nas dificuldades para lidar com a gradual perda funcional, observaram e relataram o caso de um paciente com diagnóstico de ELA familiar que iniciou um programa de exercício aquático terapêutico (WaterExerciseTherapeuticSwim  – WET Swim). De acordo com este programa, o paciente alcançaria fortalecimento e condicionamento global, realizando exercícios de aquecimento com braçada adaptada, usando os movimentos possíveis. O paciente fazia a reabilitação aquática uma vez por semana durante 45 minutos cada sessão e recebia toda assistência necessária para realizar as atividades aquáticas propostas.
Ao término do programa, foi relatado que ele conseguia ajudar mais durante a transferência da cadeira de rodas, seu nível de energia permaneceu mais alto vários dias após o início das sessões, permitindo desfrutar mais das atividades. Não há nenhuma evidência quantificável para explicar as flutuações de energia, o pesquisador sugere que este quadro relatado pode estar relacionado com a função ativa na administração do estado físico e psicológico promovido no paciente durante todo o programa de WETSwim.

Chaves et al. (2003), constatou através das escalas de qualidade de vida (ALSAQ-40), funcionalidade (ALS-FRS), força(MMT),  fadiga (FSS) e dor (EVA)que a hidrocinesioterapia possibilitou resultados significantes para dois pacientes com ELA, podendo ser considerada um bom recurso terapêutico para o tratamento dos pacientes com ELA.

Mannerkorp et al (2010) relata que o conhecimento cientifico com base na função neuromuscular, na in­tensidade, e na resistência dos exercícios em pessoas saudáveis promovem melhora da condição física em um programa de hidroterapia progressivo, levando essa aplicação com segurança, para as propostas de reabilita­ção e acrescenta que são necessárias informações sobre respostas a treinos aquáticos e outros mecanismos para melhora da performance muscular.

A abordagem motora mais adequada envolveria atividade física mais intensa e utilização de exercícios resistidos que promovessem ganhos de força necessários à realização da movimentação funcional. Entretanto, a utilização segura destas modalidades cinesioterapêuticas que envolvem um aumento da demanda metabólica ainda não existe na literatura.

Drory et al. (2001) realizaram um ensaio randomizado com um grupo de pacientes com ELA que realizavam exercícios físicos regular moderadamente e um grupo controle que realizavam apenas as atividades normais de vida diária, durante 12 meses. Nos três primeiros meses, foram observadas melhoras no grupo tratado com relação às funções avaliadas pela Escala Funcional de ELA (FRS). Entretanto, após seis meses, nenhuma diferença entre o grupo tratado e não tratado foi observada. Verifica-se, com este estudo, que, nos estágios iniciais da doença, alguma melhora estava por ser observada no grupo em que ocorreu a intervenção, porém a progressão da doença não permitiu esclarecer essa hipótese.

A dor pode se tornar o principal problema em articulações imobilizadas, de acordo com a fisiopato­logia do problema que a causa. Embora dor seja ra­ramente associada com ELA nos primeiros estágios, condições dolorosas podem ocorrer em doenças pro­gressivas, cerca de 50 % dos pacientes queixam-se de dor, embora nervos sensoriais não sejam afetados.

Em um estudo com um programa de exercício de baixa intensidade em água aquecida, não foi possível observar efeitos negativos, pois essa experiência não influen­ciou a progressão da história natural da doença, demonstrando, sim, diminuição da dor e mostrando um impacto positivo na qualidade de vida em indivídu­os com ELA. Assim, todos os pacientes com Capacidade Vital Forcada>1,51, sem sinais clíni­cos de apneia, podem ser submetidos à fisioterapia aquática, pois o programa é bem tolerado e nenhum efeito adverso está relacionado a ele, podendo ser recomendado para estes pacientes.

Na atualidade, ainda não há um protocolo de tratamento quanto aos exercícios ideais para esta população, gerando dificuldade na realização de uma abordagem fisioterapêutica precisa. No entanto, sabe-se que o foco da atuação deve ponderar o equilíbrio entre os dois pilares da ação fisioterapêutica na ELA, visto que, o uso excessivo da musculatura conduz a um aumento da fadiga e da perda de força, já a não utilização tem por consequência a atrofia por desuso e o descondicionamento físico.

Quadros et al. em um estudo prospectivo realizado com 6 pacientes de ELA, com um programa de exercício de baixa intensidade em água aquecida, por 40 minutos, 2 vezes por semana, durante 10 meses, verificaram melhora na qualidade de vida e diminuição da dor. Apesar de não influenciar na progressão da história natural da doença, não se observou nenhum efeito negativo decorrente do tratamento, sendo indicado para estes pacientes.

O estudo apresentado por Fachardo et al. (2004), referente a pacientes com Distrofia Muscular de Duchenne, submetidos ao tratamento de 21 sessões em piscina terapêutica, constatou um retardo na progressão da doença. Neste mesmo estudo conclui-se por meio de escalas que o meio aquático melhora a qualidade de vida, a satisfação e alegria do paciente com doença neuromuscular.

Segundo Arcanjo  et al. (2009), a piscina terapêutica pode ser utilizada como um recurso para manutenção da marcha, do equilíbrio e da qualidade vida em um paciente com ELA. Complementando, Pinto et al (2009) afirma que a fisioterapia aquática demonstrou ser eficaz como um método de tratamento para a melhora da qualidade de vida.

A hidroterapia é um recurso fisioterapêutico com confirmado benefício no tratamento de diversas doenças neuromusculares. Sua utilização na ELA ainda é pouco encontrada na literatura, entretanto, seus benefícios são principalmente relacionados à diminuição da força gravitacional, melhorando o relaxamento muscular, a liberdade de movimento, o controle do equilíbrio, o trabalho respiratório, além de contribuir para diminuição do estresse.

Apesar de serem escassos os estudos que relacionam a fisioterapia aquática com a ELA, é consenso que um programa de fisioterapia aquática, direcionado e planejado por meio de avaliações específicas a este grupo de pacientes, demonstra resultados satisfatórios. Quando tratamos de uma doença de caráter progressivo, proporcionamos manutenção da força muscular e funcionalidade por um maior período de tempo e consequentemente melhora da qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

1. Xerez DR. Reabilitação na esclerose lateral amiotrófica: revisão da litera­tura. Acta Fisiatr. 2008;15:182-8;

2. Henriques A, et al.  Neurotrophic growth factors for the treatment of amyotrophic lateral sclerosis: where do we stand. Frontiers in Neuroscience, 2010;

3. Halstead LS, Rossi CD. New problems in old polio patients: results of a survey of 539 polio survivors. Orthopedics. 1985;8:845-50;

4. Fowler WM. Consensus conference summary: Role of physical activity and exercise training in neuromuscular disease. Am. J. Med. Rehabil. 2002; 82(11) (suppl): S187-S195;

5. Johnson CR, Kaiserman B. Aquatic therapy for an ALS patient. Am J OccupTher. 1988;42:115-20;

6. Chaves AC, Silva TM. Labronice RH, Cunha MC, Oliveira AS.  Hidrocinesioterapia para Pacientes com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) [Monografia]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo. 2003; 53p;

7. Mannerkorpi K, Nyberg B, Ahlman M, Ekhdal C. Pool exercise combi­ned with an education program for patients with fibromyalgia syndrome: a prospective, randomized study. J Rheumatol. 2000; 27: 2473-81;

8. Honorato ES, Martins EF. Evidências para o direcionamento da intervenção fisioterapêutica nas alterações cinético funcionais geradas pela Esclerose Lateral Amiotrófica. RevBras de Cienc da Saúde. 2008;

9. Drory VE, Goltsman E, Reznik JG, Mosek A, Korczyn AD. The value of muscle exercise in patients with amyotrophic lateral sclerosis. J Neurol Sciences. 2001; 191:133-37;

10. Dal bello-haas AD, MItsumoto H VD, Kloss. Physical Therapy for a Patient Through Six Stages of Amyotrophic Lateral Sclerosis. Phy Therp1998;78:1312-24.

11. Sinaki M, Mulder DW. Rehabilitation techniques for patients with amyotrophic lateral sclerosis. MayoClinProc 1978;53:173-8.

12. Arcanjo TP, Rodrigues EC, Conceição EC, Cunha MC. Benefícios da piscina terapêutica para manutenção da marcha e do equilíbrio na esclerose lateral amiotrófica: estudo de caso. Disponível em:http://www.congressodehidroterapia.com/artigos/Arigo19.pdf Acesso em: 04 fev. 2012.
13. Facchinetti, L.D.; Orsini, M.; Lima, M.A.S.D. Os riscos do exercício excessivo na ELA: atualização da literatura. Rev. Bras. de Neur.; v45 n3, set, 2009.

14. Quadros AA, Labronicci RH, Duran MA, Berto MC, Oliveira AS. Low-Intensity Warm Water Exercise in Individuals with MND/Amyotrophic Lateral Sclerosis (ALS). Proceedings of the 16th International Symposium on ALS/MND. Dublin: ABrELA. 2006; 34p;

15. Fachardo GA, Carvalho SC, Vitorino DF. Tratamento hidroterápico da Distrofia de Duchenne: relato de um caso. RevNeurocienc. 2004; 12(4);

Fonte:Clinicarna

SEM COMENTÁRIOS

O QUE ACHOU DESTE CONTEÚDO? DEIXE SEU COMENTÁRIO.

*