MÃE CELEBRA PROGRESSOS DA FILHA COM MICROCEFALIA: ‘JÁ CONSEGUE SENTAR”

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Há pouco mais de um ano, surto da malformação em bebês atingiu o país.
Casos da doença no sexto mês de gravidez são maioria, aponta estudo

Há pouco mais de um ano, um surto de microcefalia atingiu o Brasil entre os meses de setembro e outubro, e a Bahia se destacou na lista de casos. O estado ainda não saiu do ranking e é o terceiro com maior número de ocorrências no país, com 1.273 casos de microcefalia. No período de um ano, tanto médicos, quanto pesquisadores apontam os progressos das pesquisas sobre a microcefalia. Não há apenas evolução nos estudos. As crianças que nasceram com a malformação também surpreendem os pais com o próprio desenvolvimento.

Flávia Driely Gomes Checcucci, 27 anos, é mãe de uma menina de 10 meses que já apresenta progressos devido às atividades de estimulação precoce. O objetivo é minimizar os distúrbios do desenvolvimento neuropsicomotor e, assim, possibilitar o desenvolvimento da criança. Após diversas sessões de fisioterapia, que participa desde os primeiros meses de vida, agora com 10 meses, a bebê já consegue sentar, movimento que mostra a evolução de uma criança com microcefalia.

Segundo Adriana Mattos, neuropediatra do Hospital Roberto Santos, em Salvador, e coordenadora do ambulatório de microcefalia da unidade de saúde, apesar das crianças apresentarem problemas de desenvolvimento, após passarem por tratamentos realizados desde os primeiros anos de vida, as atividades ajudam a melhor a qualidade de vida.

“A malformação que ocorre no cérebro atinge todas as áreas e, por isso, as crianças apresentam diversos problemas de desenvolvimento como na área motora, por exemplo. As crianças estão evoluindo, mesmo abaixo do esperado para a idade. Então, para uma criança de 10 meses, com microcefalia, conseguir sentar é um progresso muito grande”, explicou.

Conforme Adriana, enquanto uma criança com microcefalia passa por vários especialistas para estimulação precoce como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional entre outros, uma criança sem qualquer tipo de malformação, aos 10 meses, mesma idade da filha de Flávia, consegue naturalmente realizar movimentos como o de rolar, sentar sozinha, ficar de pé com apoio, engatinhar, pegar objetos, já sustenta o pescoço, entre outros.

Flávia conta que a filha não sustenta totalmente o pescoço, já rolou uma vez, mas consegue ficar sentada sozinha por cinco minutos. “A gente faz fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiólogo. Ela ainda não engatinha e não pega nos brinquedos. Ela acompanha tudo com o olhar, se você olha para ela, nem diz que tem microcefalia. Ela sustenta um pouco o pescoço e interage com o brinquedo. Com a fisioterapia ela teve uma evolução muito boa”, relatou a mãe.

Flávia ainda descreveu um pouco das atividades que realiza junto  com a filha de 10 meses. “Eu faço tudo com ela. Aproveito também para ficar estimulando, faço atividades em casa, estimulo a brincar, passo texturas diferentes na mão dela, coloco plástico para ela poder sentir texturas diferentes e outras sensações na mão”, contou.

Com relação à deglutição de alimentos, Flávia diz que a filha não tem dificuldades para engolir. A perda de deglutição e sucção nos bebês com microcefalia foi percebida pelos especialistas, segundo explica a neuropediatra Adriana Matos, mas a filha de Flávia só possui uma pequena sensibilidade que foi estabilizada com ajuda da fonoaudiologia.

“Ela come de tudo. Ela toma mamadeira e vitamina de frutas, come papinha de arroz, com lentilha, verdura, bananinha amassada e toma sucos. Ela não teve dificuldade de deglutição em nenhum momento, mas quando comia colocava a língua para fora, o que poderia prejudicar ou engasgar na hora de engolir. Mas a fonoaudióloga ensinou a fazer uma massagem na bochecha e já percebo melhora. Antes, com uns seis meses, ela ficava parecendo que dava língua quando estava comendo, hoje com 10 meses, ela não faz mais isso”, conta.

Pesquisa
O médico Manoel Sarno, especialista em medicina fetal e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos autores do estudo que identificou a relação do vírus da zika com hidropsia fetal e hidranencefalia participa de outros estudos referentes à microcefalia.

No último deles, divulgado em setembro e com coordenação do professor e infectologista Carlos Brito, aponta que os casos de microcefalia no sexto mês de gestação são maioria.

Os pesquisadores observaram 52 gestantes para compreender as evoluções fetais, entre julho de 2015 até fevereiro deste ano.  O resultado, de acordo com Manoel Sarno, é uma contribuição relevante para entender a microcefalia relacionada à zika e acrescenta informações importantes na evolução das alterações cerebrais em fetos expostos ao vírus da zika.

As gestantes monitoradas tiveram zika em fases diversas da gestação. Ao analisar no mínimo quatro exames de ultrassom de cada grávida os pesquisadores constataram que em 75% dos casos a microcefalia foi confirmada entre a 23° e 32° semanas (entre 6 e 8 meses). Depois da 32° foram 12,5%. A confirmação antes da 23° semana só ocorreu com mais de 10% das gestantes.

A partir do resultado desse estudo, uma nova pesquisa será feita em parceria com médicos de outros países. As gestantes serão acompanhadas a cada 15 dias através de exames de imagem e também de sangue. Os pesquisadores querem saber o tempo exato entre a infecção pelo vírus e as primeiras lesões, por mais leves que pareçam.

Conforme Sarno, o conhecimento obtido na pesquisa facilita, depois do desenvolvimento futuro, os possíveis tratamentos. O médico conta que a pesquisa pode viabilizar algum medicamento que possa diminuir a carga viral da zika ou bloquear a passagem do vírus pela placenta, ou até mesmo após o vírus passar para placenta, que haja possibilidade de tratamento para evitar que o vírus se desenvolva no feto.

“Essa pesquisa foi o principal, observar as lesões durante a gravidez. A gente conseguiu descrever a progressão da doença. A partir daí, a gente vai ter que acompanhar gestantes expostas ao vírus e perceber as alterações e desenvolvimentos”, explicou.

Descoberta da Zika
Foram dois pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) que identificaram o vírus da zika, em abril de 2015. De acordo com Gúbio Soares, pesquisador que fez a descoberta junto com Silvia Sardi, foi a primeira vez que o vírus foi identificado na América Latina, sendo mais comum na África e Ásia.

A pessoa que tem zika apresenta sintomas semelhantes aos da dengue, febre, diarreia, dores e manchas no corpo. Porém os sintomas são considerados mais brandos do que o da dengue.

A identificação do vírus foi realizada após a dupla de pesquisadores trabalhar por cerca de 20 dias em amostras de sangue de pacientes que apresentaram os sintomas, por meio de uma técnica chamada RT-PCR, que amplifica o material genético do vírus, através de reagentes, aumentando o sinal deste material genético.

Fonte: G1.Globo

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