ME FORMEI , E AGORA?

0
555

A passagem do Ensino Superior e o ingresso no mundo do trabalho costuma ser um momento delicado na vida de um profissional. Seja no meio da faculdade — nos estágios obrigatórios ou extracurriculares — seja após a formatura — ao se tentar vagas para o primeiro emprego efetivo ou para processos seletivos direcionados (como os Programas de Trainees), abandonar a condição exclusiva de estudante e iniciar-se como profissional inaugura uma grande transição de status e responsabilidade.

É um momento que revisita a passagem do Ensino Médio para o Ensino Superior e traz novamente à tona as escolhas do final da adolescência: Com que vou trabalhar? Devo continuar a estudar? Como ingressar no mercado? Que estilo de vida posso e quero levar? De que forma posso sustentar meus sonhos?

Porém, mais que reviver a primeira escolha vocacional, trata-se de um momento de construção da identidade ocupacional. Ao mesmo tempo em que o jovem profissional revive suas angústias escolares, defronta-se com novas angústias do mundo adulto e com uma cobrança social renovada para que se posicione de forma muito mais contundente, “adequada” à sua nova posição social: Como pagar as contas? Qual a melhor proposta de emprego? Trabalhar com o que gosto ou com o que paga mais? Como conciliar trabalho e vida pessoal?

Os privilégios que lhe eram concedidos na infância (e para uma parcela ainda mais privilegiada, até o final da faculdade ou além) não existem mais e surge uma comparação com seus pares e gestores, muitas vezes sentidos como competidores mais experientes e que o cobram por atitudes e decisões que ele ainda não se sente preparado para tomar.

A distância entre a formação acadêmica e a realidade cotidiana do trabalho desampara o jovem na entrada no mercado. Escolas e universidades os ensinam a refletir, questionar, criticar, enquanto o mercado ainda espera por boa adaptação às normas, aos valores vigentes, à cultura organizacional, ao job description… Inovação sim, claro, desde que não ponha em risco a fidelidade dos velhos e bons clientes, não questione a autoridade do especialista com tanto tempo de casa, não passe por cima da hierarquia estabelecida… (Salvo raras exceções.)

A busca desenfreada por novos talentos faz com que organizações desenvolvam programas cada vez mais complexos, que prometem mundos e fundos tanto para os candidatos quanto para os resultados do negócio. São oportunidades de Summer Job, Estágio, Trainee, Pós-Trainee, que oferecem ascensão rápida, salário competitivo, autonomia e autogestão, mas acabam por encontrar um gap imenso entre o esperado e o real em termos de maturidade, comprometimento e desempenho, levando a altos índices de rotatividade, seja por desligamento ou abandono. Situações que me lembram de um cartoon popular no final dos anos 90: Pink e Cérebro tinham ideias mirabolantes para dominar o mundo todas as noites, mas no final, eram só dois ratinhos de laboratório… ;-D

A primeira ilusão foi quebrada: não se estuda apenas o que se gosta na faculdade. Estatística na faculdade de Direito, Anatomia na faculdade de Esporte, Genética na faculdade de Psicologia, Antropologia na faculdade de Economia, Sociologia na faculdade de Medicina… Ok, você sobreviveu a isso.

A segunda ilusão está prestes a ser desmascarada também: não se aprende tudo na universidade. Na verdade, a faculdade mais parece um cardápio, onde você entende os principais ingredientes de cada prato (cada abordagem teórica, cada técnica, cada atuação profissional); prova de uma, talvez duas, quiçá três (em iniciações científicas, estágios obrigatórios, trabalhos extracurriculares); mas não se aprende a cozinhar de fato nenhuma refeição completa (para isso, é preciso especializações, é preciso a prática, a experiência, a vida de trabalho em si). Você vai desenvolver as ferramentas ao longo da sua vida laboral, as bases acadêmicas são uma iniciação, mas é um processo contínuo de aprendizagem (ainda bem!) que continuará te desafiando ao longo da sua trajetória de recém-formado. Você também vai sobreviver a isso.

Mas é a terceira ilusão o maior desafio: depois de conseguir passar naquela DP de estatística, estudar os principais pensadores da Economia, se especializar em Análise Macroeconômica, estagiar em Bancos e ONGs, você finalmente vai ganhar sua liberdade e trabalhar com alegria naquilo que mais ama na vida, certo? Não necessariamente. Essa é a idealização que nos acompanha durante boa parte da (se não por toda) vida. E é irreal porque aquela função escolhida, aquele ambiente definido, aquela missão proferida, aquele cotidiano estabelecido, não respondem conforme o seu desejo e, por isso, não serão sempre satisfatórios, estimulantes e agradáveis.

Para começar, não o serão porque nós mesmos não somos constantemente iguais todos os dias: acordamos mais elétricos ou mais preguiçosos (e isso nos faz mais assertivos ou mais impacientes com aquele cliente, aquela negociação, aquela equipe…), levantamos mais otimistas ou mais desanimados (e isso nos faz mais determinados ou menos resilientes com aquele problema, aquele colega competitivo, aquele desafio novo que assumimos…), vamos para o trabalho mais amorosos ou mais mal-humorados (e isso nos faz mais criativos ou menos generosos com aquela produção, aquele chefe, aquele departamento…).

Em segundo lugar, não o serão porque nós mudamos ao longo da vida. Aquele foco de interesse que temos ao chegar na faculdade se transforma ao longo dela, ao sair é outro, ao se ingressar numa função nova é outro e provavelmente vai se alterar mais algumas vezes no decorrer de nossas vidas. Estudos sugerem que todos nós mudamos nosso tema de interesse no trabalho ao menos quatro vezes ao longo da vida produtiva, ou seja, mesmo quem continua sempre trabalhando com Psicologia Clínica, muito provavelmente comece a vida mais focado em transtornos alimentares, por exemplo, passe a se interessar pelas questões do feminino, da maternidade e por fim acabe trabalhando com crianças. Isso em uma carreira razoavelmente estável, mas há uma boa parte que busca (ou é impelido a) transições ainda mais drásticas: de bancário a nutricionista, de engenheiro a psicólogo, de médico a músico, de editor de vídeo a ator, de advogado a decorador…

Em uma sociedade frenética e disruptiva como a nossa, é cada vez mais natural crescermos com multi-interesses, sermos multi-tarefas, desenvolvermos multi-talentos, já que é cada vez mais claro que muitos caminhos podem levar ao mesmo lugar (um psicólogo, um médico, um administrador e um filósofo podem, todos, resolver trabalhar como Coach) e que uma mesma trajetória inicial pode ter desfechos bem diferentes (um engenheiro pode ser projetista, gerente de obras, administrador público, atuar com segurança e saúde, com meio ambiente e até com coaching partindo praticamente de uma mesma formação-base).

Portanto, amigo Universitário, a resposta à sua pergunta “Me formei, e agora?” é: Agora continua a sua ‘formação’, a formação dos seus valores pessoais, do seu projeto de vida, que será (deve ser) sempre atualizado de acordo com as mudanças de fora e de dentro que você continuará vivendo.

Nem é um começo do zero, inédito (você já carrega uma boa bagagem na mala, então aquelas queixas novelescas “Ai, não tenho experiência nenhuma, não sei de nada, não sirvo para nada…” não procedem) e nem é um final definitivo (por isso chega do drama “Oh, minha juventude, lá se vai minha vida boa, é o fim de uma era…”). Esta é a fase da continuidade: keep walking and carry on! Siga, persista, desbrave e carregue junto as suas experiências vividas e que vão se acumulando e se transformando a cada novo elemento que você põe para dentro da mala.

Pare de vez em quando para olhar os mapas (suas metas, seus desejos, os direcionamentos que lhe foram dados) e recuperar sua energia (seu propósito, sua motivação, sua disposição). Pare de vez em quando para conferir a bagagem (seus conhecimentos, suas habilidades, suas atitudes) e reabastecer quando necessário (novos cursos, novas orientações, novos aprendizados). Pare de vez em quando para encontrar novos rumos (replanejar, recalcular, atualizar) e tomar novos ares (novas parcerias, novas inspirações, novas disposições).

Por: Marina Bergamaschi é sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira

Fonte: Livros e Pessoas

SEM COMENTÁRIOS

O QUE ACHOU DESTE CONTEÚDO? DEIXE SEU COMENTÁRIO.

*