MUSCULAÇÃO TERAPÊUTICA E ADAPTADA: NOVA PERSPECTIVA DE TRABALHO PARA FISIOTERAPEUTAS E EDUCADORES FÍSICOS.

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Dr. José Maria Santarem*

Os efeitos promotores de saúde dos exercícios físicos são conhecidos há várias décadas e atualmente melhor compreendidos, justificando a importância do incentivo de atividade física habitual para todas as pessoas. Paralelamente, os efeitos dos exercícios físicos para a recuperação da saúde também são atualmente melhor compreendidos. Um aspecto importante é que os exercícios mais intensos são mais eficientes para todas as finalidades, embora os exercícios mais suaves sejam mais seguros. Evidências atuais sugerem que os exercícios resistidos da musculação sejam os mais eficientes para promover saúde geral, além de produzir a mescla de qualidades de aptidão mais adequada para a funcionalidade. Por outro lado, esses exercícios também têm sido identificados como os mais seguros porque permitem controle ideal de sobrecargas, tanto musculoesqueléticas quanto cardiovasculares. A musculação tem a eficiência dos exercícios intensos associada a segurança dos exercícios suaves.

         Fisioterapeutas precisam conhecer a fisiologia dos exercícios resistidos e métodos de treinamento para aplicar esses conhecimentos com a finalidade de tratar doenças. Os educadores físicos precisam conhecer esses aspectos, mas também conhecer as doenças e lesões, com o objetivo de adequar o condicionamento físico para a presença de situações patológicas.

Pelos mesmos mecanismos pelos quais a atividade física ajuda a evitar doenças, ajuda a tratá-las. Na área das doenças sistêmicas gerais como hipertensão, diabetes, obesidade, dislipidemias e doenças cardiovasculares, o mecanismo de profilaxia e de tratamento mais importante é o combate à inflamação basal induzida pelo sedentarismo. A redução da inflamação basal aumenta a sensibilidade à insulina e diminui a tendência para a degeneração vascular (aterosclerose). Esse efeito dos exercícios é explicado pela produção de substâncias anti-inflamatórias (miocinas) pelos músculos esqueléticos em atividade. Algumas evidências atuais sugerem que os exercícios resistidos da musculação sejam os mais eficientes para produzir miocinas. Atualmente a popularidade da atividade física faz com que muitas pessoas com predisposição genética para doenças sistêmicas possam evitá-las ou mantê-las controladas. Assim sendo, pessoas com idades cada vez mais avançadas são encontradas envolvidas com exercícios nos centros de prática esportiva e academias.

         Na medida em que as pessoas se afastam da juventude os processos de desgaste do sistema musculoesquelético se tornam cada vez mais prevalentes. Esses desgastes das articulações e dos músculos são de natureza genética, podendo começar a aparecer no início da maturidade e não são produzidos pelo uso como inicialmente se pensou. Atualmente se sabe que a utilização habitual e adequada do aparelho locomotor estimula a vitalidade das cartilagens e dos discos intervertebrais, melhora a estrutura óssea e fortalece músculos e tendões. No entanto, esforços esportivos, de lazer ou de trabalho com características inadequadas podem produzir ou agravar sintomas na vigência de processos degenerativos.

         Quando a natureza de cada um determina que os processos de desgastes apareçam nas articulações periféricas ou na coluna vertebral, a capacidade para atividades físicas fica prejudicada. Assim sendo, exercícios e esportes anteriormente praticados sem qualquer problema podem passar a desencadear dores. Na origem dessa situação são frequentemente identificados os desgastes dos tendões dos ombros, antebraços e quadris, os desgastes dos discos intervertebrais, os desgastes das cartilagens dos quadris, mãos, pés e joelhos, incluindo os desgastes dos meniscos.

         As pessoas que começam a perceber limitações dolorosas nos esportes ou exercícios precisam ser avaliadas por um médico com competência na área para ter um diagnóstico definido. Infelizmente muitas vezes as pessoas são orientadas a abandonar a atividade física ou mudar para exercícios muito suaves com mínimos benefícios e muitas vezes com os quais a pessoa não apresenta nenhuma identidade. Na maioria das vezes a conduta mais adequada é adaptar a atividade física que a pessoa vem praticando tendo como guia o conforto durante e após os exercícios e iniciar um programa de musculação para tentar aumentar a capacidade para suportar esforços. Em algumas situações, atividades com grandes sobrecargas como saltos, socos, chutes, torções e movimentos explosivos precisarão ser definitivamente abolidas.

         A musculação será sempre a atividade ideal na presença de processos patológicos por duas razões: eficiência e segurança. Os exercícios resistidos têm os melhores efeitos para fortalecer e alongar músculos e tendões, ao mesmo tempo em que podem ser adaptados para não forçar excessivamente as estruturas articulares envolvidas. Um eficiente alongamento muscular foi identificado como efeito das contrações excêntricas dos exercícios resistidos. Assim sendo, os efeitos tróficos e vitalizantes dos exercícios resistidos ocorrem ao mesmo tempo em que as estruturas comprometidas são aliviadas e podem se recuperar de processos inflamatórios.

         Por outro lado, como qualquer tipo de exercício, a musculação também pode estar envolvida na origem dos sintomas dolorosos dos processos degenerativos, exigindo adaptações. Um problema frequente é que os profissionais que orientam o treinamento físico podem não conhecer bem os processos patológicos e não saber como adaptar os exercícios resistidos nessas situações. Tentativas mal orientadas na musculação em vigência de dores articulares podem gerar a noção incorreta de que os exercícios resistidos são inadequados. Os métodos tradicionais de treinamento resistido têm menor probabilidade de produzir sintomas dolorosos na presença de fragilidades, mas o contrário ocorre quando pesos são utilizados em propostas de condicionamento físico que utilizam movimentos explosivos e os chamados “movimentos funcionais” que levam a sobrecargas articulares inadequadas devido a torções e ângulos de movimento com pouca proteção ligamentar e muscular.

         A utilização de exercícios com finalidade terapêutica é área da fisioterapia, mas um problema frequente é que os fisioterapeutas, apesar de conhecerem as doenças e suas limitações, podem não ter acesso ao equipamento de musculação ou não ter noções adequadas de treinamento físico. Os educadores físicos em academias não podem ter a proposta de exercícios terapêuticos por limitações impostas pelos conselhos profissionais, mas podem e devem ter formação para realizar treinamento adaptado para as diversas doenças e lesões. Os efeitos terapêuticos ocorrerão, embora a proposta seja a de treinamento adaptado. Da mesma forma a evolução do condicionamento físico ocorrerá com as pessoas que forem orientadas por fisioterapeutas com propostas de tratamento, mas utilizando equipamento e técnicas de treinamento físico.

         No caso de clubes e academias, onde pessoas cada vez mais avançadas na idade são encontradas, o conhecimento das doenças e das técnicas de adaptação da musculação são fundamentais para o educador físico. Importante diferenciação profissional ocorre quando o fisioterapeuta tem boa formação em treinamento resistido e quando o educador físico tem compreensão adequada dos processos patológicos.

Fonte: Dr. José Maria Santarem*

* José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, coordenador de pós-graduação na Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, autor do livro Musculação em Todas as Idades (Manole), consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br, diretor do Instituto Biodelta e projetista da Linha Biodelta de aparelhos para musculação.

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