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O ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL NA PERSPECTIVA DA FISIOTERAPIA NEUROFUNCIONAL

Sobre o tratamento multiprofissional ao AVC, conversamos, dessa vez, com a fisioterapeuta Prof.ª Moema Guimarães.

iSaúde Bahia – Como sua especialidade contribui para a reabilitação de alguém que sofreu um AVC?

Moema Guimarães – A Fisioterapia Neurofuncional é uma especialidade que objetiva uma assistência específica voltada para as alterações físicas e/ou comportamentais no indivíduo, resultantes de desequilíbrios neurológicos diversos. O Acidente Vascular Cerebral desencadeia uma série de sequelas e incapacidades no sujeito, provocando níveis de dependência física e cognitiva, impactando no seu envolvimento social e laboral.

Essa especialidade se preocupa principalmente em auxiliar o indivíduo que sofreu o AVC, no seu retorno às suas funções habituais. Para isso, avaliamos o grau de sequela de cada sujeito e como ela impacta no desempenho das suas atividades cotidianas, sociais e laborais. Como conhecemos o funcionamento normal dos sistemas do corpo humano, podemos aplicar técnicas que objetivam reaproximar o sujeito desse estado normal. No entanto, nem sempre é possível o retorno dessa “normalidade”. Direcionamos, então, o tratamento para que o indivíduo recupere sua independência funcional, mesmo existindo alguns graus de limitação. A capacidade de retornar a andar, por exemplo, é algo muito desejado após um AVC. Nossa intenção é tratar de forma que a pessoa recupere sua marcha mesmo que ela não obtenha uma estética, dita normal, ou que seja necessário usar um dispositivo auxiliar (bengala ou órteses).

iSB – Qual a importância da reabilitação começar o mais rápido possível após o AVC?

Moema Guimarães – O nosso sistema nervoso dispõe de uma propriedade chamada neuroplasticidade que, para explicar de uma maneira simples, significa a capacidade de aprender e reaprender. Para que isso aconteça, existem mudanças estruturais e funcionais no tecido nervoso. Logo, após o AVC, o tecido nervoso entra num processo acelerado de reestruturação e reorganização, para tentar corrigir ou minimizar a lesão e suas consequências (neuroplasticidade muito ativa). Ou seja, é o momento no qual o indivíduo deve ser estimulado ao máximo pela Fisioterapia, para recuperação das suas capacidades físicas e cognitivas. Quanto mais cedo aplicarmos as nossas técnicas, possibilitaremos o fornecimento adequado de estímulos e proporcionaremos uma maior capacidade de reaprendizado de funções mais próximo da normalidade, uma vez que o tecido nervoso está em intenso remodelamento. Caso não seja tratado desde cedo, o sujeito vai ter também um certo nível de recuperação, porque a neuroplasticidade é inerente ao sistema nervoso. No entanto, o ganho, além de ser menor, poderá também ser de uma forma que não favoreça o desempenho funcional. Por exemplo, a simples ação de se levantar de uma cadeira pode ser considerada muito difícil por uma recuperação inadequada da parte motora, gerando movimentos imprecisos, difíceis e com grande gasto energético. A intervenção fisioterapêutica precoce favorece uma recuperação funcional mais adequada, utilizando-se da neuroplasticidade em ebulição após a lesão.

iSB – Pode comentar um pouco sobre como decorre, geralmente, o trabalho com outros profissionais que também atuam nessa reabilitação? Há contato entre esses diversos profissionais?

Moema Guimarães – Atualmente, sabe-se que o maior benefício para o indivíduo, após o AVC, acontece quando ele é assistido por uma equipe multiprofissional. O médico, enfermeiro, assistente social, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo e profissional de educação física compõem essa equipe que objetiva oferecer ações que promovam a reabilitação do indivíduo. Esses profissionais, mesmo que não atuem no mesmo ambiente físico, comunicam-se para conversar sobre o estado daquele cliente e tentar alinhar as ações para objetivos comuns. A nossa realidade de assistência pública ainda está longe de oferecer essa atenção multiprofissional para toda a população, apesar de existirem normas no nosso modelo de saúde que obrigam a presença de uma equipe completa nos centros de assistência. Os indivíduos com melhor poder aquisitivo podem ter acesso a esse tratamento mais completo, o que, às vezes, se traduz em uma reabilitação mais eficaz. Mas isso não representa a maioria da população, o que nos leva a uma quantidade grande de indivíduos sem assistência integral. Não devemos esquecer também que nem sempre todos os indivíduos que sofrem AVC precisam da ajuda de todos os profissionais da equipe. Esse direcionamento vai depender das sequelas apresentadas.

iSB – A rede de Saúde Pública no Brasil, em geral, oferece boa assistência aos pacientes que necessitam da reabilitação ou deixa a desejar?

Moema Guimarães – Apesar de ainda não ser o ideal, o Brasil vem, ao longo da história, evoluindo as propostas de políticas públicas. Passamos por uma saúde pública em que a assistência era voltada para os indivíduos inseridos no mercado de trabalho, objetivando ações educativas e assistencialistas. Posteriormente, surgiram novas diretrizes do SUS, que asseguram a todos os indivíduos, sem distinção, acesso à assistência à saúde. No entanto, na prática, ainda observamos algumas dificuldades para uma assistência integral. O número de serviços e profissionais disponíveis para atender a demanda da população ainda não é suficiente; alguns municípios ainda não dispõem de serviços de referência e não há um investimento na qualificação dos profissionais para prestar uma assistência adequada. Esses são alguns dos desafios a serem vencidos pelo nosso sistema de saúde.

Por:Moema Guimarães / CREFITO 29.930-F

Graduada em Fisioterapia pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (1998), especialista em Fisioterapia Neurofuncional em Adulto pela ABRADIMENE e mestrado em Ciências da Família pela Universidade Católica do Salvador (2005). Atualmente, é professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, no curso de Fisioterapia e Medicina. Fisioterapeuta em clínica e domicílio. Tem experiência na área de Fisioterapia e docência. Doutoranda em Medicina e Saúde Humana pela Bahiana.

Fonte: I Saúde Bah

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