OS BENEFÍCIOS DA EQUOTERAPIA PARA CRIANÇAS COM PARALISIA CEREBRAL

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A Paralisia Cerebral (PC) pode ser descrita como um grupo de desordens no desenvolvimento do movimento e da postura, provocando limitações funcionais, devido a uma lesão não-progressiva que ocorre no cérebro ainda imaturo. Esta lesão pode ocorrer antes, durante ou logo após o nascimento (neonatal), mas também há casos em que ela se dá após o primeiro mês de vida (adquirida). Esta doença acomete cerca de 3 indivíduos a cada 1000 nascidos vivos.

A criança com PC apresenta distúrbios motores como: alterações neuromusculares, permanência de reflexos primitivos, rigidez, espasticidade, entre outros. Frequentemente, estes distúrbios são acompanhados de alterações de sensibilidade, percepção, cognição, comunicação e comportamento, alem de epilepsia e problemas musculoesqueléticos secundários. Um dos problemas mais marcantes da criança com PC é a alteração do controle postural.

A Paralisia Cerebral é classificada de acordo com o tônus muscular, podendo ser espástica, hipotônica, atetósica ou atáxica; e de acordo com sua topografia, podendo então ser chamada de tetraplegia, diplegia, paraplegia, hemiplegia ou monoplegia.

O tratamento da criança portadora de PC é multiprofissional e inclui tratamentos medicamentosos, cirúrgicos e clínicos. O principal objetivo é a melhora da capacidade funcional do paciente, com ênfase no movimento. Com o tempo, tem-se a diminuição gradual da interferência direta do profissional, levando a um aumento da independência da criança.

Uma das terapias utilizadas nesta criança é a Equoterapia, que consiste em um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo em uma abordagem interdisciplinar. Nesta terapia, a criança recebe o movimento do cavalo, o que estimula sua movimentação ativa.

A Equoterapia foi reconhecida como método terapêutico pelo Conselho Federal de Medicina em 1997e, atualmente, encontra-se entre os serviços especializados oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesta técnica, o profissional controla o cavalo de modo a estimular a postura, o equilíbrio, a coordenação, a força e o sistema sensório-motor da criança, enquanto ela responde a estes estímulos e também interage com o animal. Quanto maior for a criatividade do terapeuta, dentro dos limites que a técnica impõe, mais beneficamente estimulado o paciente será.

Os estímulos obtidos pela equoterapia repetem a amplitude, o ritmo e a velocidade através de uma estimulação vestibular lenta, o que é capaz de minimizar o tônus muscular. A evolução do alinhamento postural torna o gesto motor mais coordenado, cautelando a ocorrência de compensações que possam resultar em deformidades.

O fundamento principal deste tipo de terapia é o movimento tridimensional da andadura ao passo, proporcionando ao corpo do paciente deslocamentos para frente e para trás, para um lado e para o outro e para cima e para baixo, associado a movimentos de cintura pélvica.

De modo geral, a equoterapia promove melhora do controle postural (pela estimulação das reações de equilíbrio e de coordenação da postura) e da flexibilidade da cadeia muscular posterior. Também mostra benefícios como melhora dos movimentos de tronco, quadril e pelve e ainda grande influência na postura, no equilíbrio e na coordenação desta criança.

São observados ainda benefícios como ganhos psicológicos e educacionais e aquisição e desenvolvimento de funções psicossociais, bem como melhora da auto-estima.

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo se trata de uma revisão bibliográfica de artigos científicos brasileiro e internacionais, com pesquisa realizada nas bases de dados Lilacs e Scielo. Para a busca, foram utilizadas as palavras-chave “equoterapia”, “paralisia cerebral” e “benefícios”. A pesquisa foi realizada no período de Julho a Setembro de 2015 e foram selecionados artigos publicados entre 2003 e 2015.

Os critérios de inclusão foram artigos relacionados aos benefícios que o tratamento com Equoterapia pode trazer à criança portadora da Paralisia Cerebral. Foram excluídos aqueles artigos que não associavam a Equoterapia à Paralisia Cerebral.

RESULTADOS

Os artigos foram filtrados inicialmente pela associação das palavras-chaves, totalizando 27 artigos. Desses 27, 3 foram excluídos por indisponibilidade para leitura completa, e 4 foram excluídos por não abordarem a Equoterapia como uma forma de tratamento fisioterapêutico.

DISCUSSÃO

A Equoterapia está se tornando uma terapia cada vez mais popular nos países desenvolvidos como algo complementar ao tratamento convencional, sendo especialmente procurada por pais de crianças com Paralisia Cerebral. No Brasil, este tipo de terapia foi introduzido há pouco tempo entre as terapias oferecidas pelo Sistema Único de Saúde.

Em um estudo realizado por Park, E. et AL (2014), 34 crianças entre 3 e 12 anos foram submetidas a 2 sessões semanais de Equoterapia, com duração de 45 minutos cada, por 6 semanas; ao final do tratamento, foi observada uma melhora da função motora grossa e da funcionalidade destas crianças, bem como no estudo de Borges, M.B. (2011) que, além disso, também constatou melhora da postura e da aceitação ao tratamento.

De Jesus, I.T. (2010) observou em seu estudo que as crianças que passaram por sessões de Equoterapia obtiveram ganhos significativos com relação ao equilíbrio durante a marcha, à postura, à dissociação dos movimentos e à socialização.

Em 2004, Valdiviesso, V. observou em seu estudo que houve melhora do alinhamento postural, do posicionamento da cabeça e do endireitamento do tronco na postura sentada após sessões de Equoterapia com duração de 40 minutos cada.

Araújo et AL (2010) realizou um estudo com 27 crianças entre 2 e 12 anos submetidas à Equoterapia e observou que todas elas apresentaram melhora da postura ao final das sessões.

Em um estudo de caso de Botelho, Oliveira e Sousa (2003), foi verificado o grau de espasticidade de todos os pacientes, nos músculos adutores do quadril, através da escala de Ashworth modificada. Estes dados foram reavaliados após a sessão da Equoterapia, que teve duração de 30 minutos e foi realizada uma vez por semana, com o cavalo a passo. Os músculos adutores direito e esquerdo apresentaram já na primeira sessão uma redução de 0.5 grau na escala Ashworth modificada, mantida no início da décima sessão. Baseados nos dados obtidos na pesquisa, eles perceberam que todos os casos que foram observados tiveram uma melhora na espasticidade; sendo assim, a Equoterapia foi citada como um método válido para a redução da espasticidade. O autor ressalta que ainda são necessários mais estudos, com maior número de pacientes, para determinar a significância estatística deste tipo de estudo.

Araujo, Ribeiro e Silva (2010) observaram que a melhor resposta ao tratamento se dá nas crianças mais novas, pela ausência prévia de deformidades ósseas ou contraturas articulares e deformidades fixas, situações que se encontram frequentes em idades mais avançadas.

Silveira e Wibelinger (2011) fizeram seu estudo com crianças entre 6 e 12 anos com Paralisia Cerebral submetidas a sessões de Equoterapia; elas apresentavam alteração postural, espasticidade de leve a moderada, marcha independente e boa compreensão. As crianças obtiveram ganhos como: diminuição do grau de escoliose, melhora da mobilidade de tronco e membros superiores, ganho de equilíbrio, postura e marcha, assim como elevação da auto estima, da atenção, da concentração e da autonomia.

CONCLUSÃO

Através desta pesquisa, observou-se claramente que a Equoterapia tem um papel extremamente benéfico como terapia complementar para as crianças portadoras da Paralisia Cerebral. Nesta técnica, além dos ganhos motores, também são observados ganhos psicossociais, trazendo maiores benefícios ainda à criança e à sua família.

Nos estudos, os resultados foram positivos no que dizem respeito à melhora da postura, aprimoramento da habilidade motora, diminuição da espasticidade, ganho de equilíbrio e normalização do tônus.

O contato com o animal proporciona aos pacientes um cenário mais lúdico, elevando sua auto-estima e fazendo com que estas crianças tenham uma melhor aceitação com relação à prática.

Porém, foi verificada uma escassez de material que comprove cientificamente os benefícios da Equoterapia na Paralisia Cerebral. 

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Fonte: interfisio.com.br

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