PARTO NORMAL E FISIOTERAPIA

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É preciso “desmedicalizar” o nascimento e resgatar o parto humanizado centrado na mulher como protagonista desse evento, também respaldado por evidências científicas. Esse resgate vem ocorrendo desde a década de 80, encorajando a participação ativa da mulher, estimulando o parto em posturas verticais que favorecem todo o processo do nascimento.

O trabalho de parto (TP) e o parto são divididos em quatro fases:

1ª – Período “latente”: caracterizado pela atividade uterina aumentada, contrações irregulares e descoordenadas, mas que não ocasionam a progressão do parto. Também chamado de “falso trabalho de parto”, que pode durar, em média, de 12 a 20 horas. A presença de contrações uterinas a intervalos regulares, que aumentam gradativamente de frequência e intensidade, associado ao apagamento e dilatação progressivos do colo uterino, caracteriza o início do trabalho de parto ativo, ou do parto propriamente dito. Com a progressão da intensidade das contrações, o colo uterino dilata-se até atingir aproximadamente 10 centímetros e apaga-se totalmente, fenômeno conhecido como esvaecimento, o que conclui a primeira fase do TP.

2ª – Fase de expulsão fetal: tem início com a total dilatação, apagamento do colo uterino e entrada da parte do bebê que primeiro surgirá no canal de parto, surgindo a “vontade de empurrar ou espremer” (puxo), que deve ser voluntária! Não deve ser exigido à gestante que ela “prenda o ar e faça força”, pois é prejudicial para a mãe e o bebê devido às repercussões cardiocirculatórias.

3ª – Nascimento da placenta (secundamento, delivramento ou dequitação): nesta fase ocorrem a separação, descida e expulsão da placenta. A fase dura em média de 6 a 30 minutos.

4ª – Primeira hora após a saída da placenta: neste momento iniciam-se as alterações hemodinâmicas e circulatórias significativas e iniciais de retorno do organismo materno às condições de antes da gravidez.

É preciso ressaltar que desde o momento do nascimento, o bebê deve ficar em contato direto com a mãe, o cordão umbilical não deve ser cortado imediatamente e a amamentação deve ser estimulada na primeira hora após o parto. Todas estas medidas seguem as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), visando o bem-estar da mãe e do seu bebê.

Em relação à cirurgia cesárea, a recuperação da mulher que opta pelo parto normal é bem mais rápida. De 6 a 12 horas após o parto normal, a mulher já está se movimentando livremente sem auxílio, restabelecida e totalmente dedicada aos cuidados com o seu bebê tão aguardado!

E como a fisioterapia atua para otimizar o TP e o parto?

O ideal é que toda mulher ao longo da gestação pratique atividade física orientada por profissional qualificado, isso ajudará bastante no TP, parto e em sua rápida recuperação no pós-parto. Pois, quanto mais ativa ela se mantém, melhor será a evolução de seu parto. Conhecendo melhor seu corpo, saberá adotar as posturas e padrões respiratórios mais confortáveis. No entanto, gestantes que não praticaram nenhum tipo de exercício físico também poderão ter seu parto normal. TODAS AS MULHERES SÃO CAPAZES DE PARIR NATURALMENTE!

A fisioterapia no momento do TP e parto é feita no intuito de dar assistência à gestante para:

– Aliviar as dores do parto e promover relaxamento: através de massagens relaxantes, compressas mornas, imersão em água morna, oferecendo um suporte contínuo do TP como recomenda a OMS. Em relação ao uso da Eletroestimulação Nervosa Transcutânea (TENS) na região da coluna torácica, lombar e sacral, diversos estudos obtiveram resultados inconclusivos quanto à sua eficácia para controle da dor do parto. Apesar disso, há uma boa satisfação das gestantes que utilizaram, demonstrando desejo de fazê-lo novamente em futuros partos. Pois, não há nenhum dano causado à gestante, ao bebê e também ao andamento do TP.

– Favorecer a movimentação ativa da gestante: através da caminhada, exercícios na bola suíça, estimulando a mobilidade das articulações da pelve, favorecendo também o controle da dor e a participação da mulher no parto.

– Adotar posturas que favoreçam alívio das dores, o encaixe e a fase de expulsão do bebê: a depender da fase do TP, existem posturas específicas que variam desde a postura de pé, de quatro apoios (gatas), decúbito lateral esquerdo, sentada na bola ou no banquinho, semissentada, até cócoras. O uso de posições verticais e/ou caminhada durante a primeira fase do TP encurta esse período em aproximadamente uma hora, fato comprovado por estudos científicos.

Adotar padrões ventilatórios que ajudam a minimizar o estresse da parturiente e garantir ao bebê uma oxigenação adequada: lembrando que essas orientações respiratórias são passadas às gestantes desde seu pré-natal, o que não significa que o fisioterapeuta vá ensiná-la a respirar. Não é isso! Apenas nosso trabalho será no intuito de explorar em cada mulher as estratégias respiratórias pessoais preexistentes, utilizadas em outras situações de dor e estresse, objetivando um relaxamento durante o TP e parto. A respiração deverá ser a mais tranquila e suave possível. Nada de “respiração cachorrinho”, que é péssima para a oxigenação da mãe e do bebê. A respiração deve proporcionar uma integração ativa da mulher no processo do parto, melhorando a sintonia entre o corpo e a mente.

Toda a equipe envolvida no parto normal humanizado (obstetra, parteira, enfermeira, doula, fisioterapeuta, pediatra), deve verdadeiramente assistir ao parto e só intervir quando necessário.

Falar sobre o parto normal é sempre muito instigante, ao menos para mim, é algo sublime e emocionante! Tive a honra de presenciar alguns nascimentos, cada um com sua particularidade e verdadeiramente – repito – emocionante! Às futuras mamães deixo o recado: sejam protagonistas de seus partos, escolham o que lhes proporcionar maior segurança. Seja no ambiente hospitalar, em suítes de parto, em casa, dentro ou fora d’água, a gestante tem que ter sua autonomia preservada para escolher onde quer parir. Nada deve ser forçada… É assim que se procede a humanização do nascimento: obedecendo aos desejos da mãe!

Por: * Milena Andrade (milena_bezerra@yahoo.com.br) – Fisioterapeuta, Especialista em Fisioterapia Obstétrica e Urogenital, Formação Internacional em Uroginecologia, Colaboradora do Livro “Fisioterapia Obstétrica Baseada em Evidências” (Medbook Editora).

Fonte: falafisio

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