PROFESSOR CRIA PRÓTESE COM TECNOLOGIA DE BAIXO CUSTO

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Imagine dormir e sonhar que está mexendo uma das mãos. Durante o sonho, você toca o rosto, mas não consegue sentir os dedos e acorda com uma sensação estranha. Não há mãos ou dedos, apenas as marcas da cirurgia de amputação na altura do pulso. Este é o sentimento de quem teve um membro amputado, uma perda que nunca passa e o desejo de alguma forma recuperar o membro perdido.

Este desejo pode se tornar realidade com a ideia de uma prótese mecânica, que vem sendo desenvolvida pelo terapeuta ocupacional da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Jorge Lopes Rodrigues, professor do Laboratório de Tecnologia Assistiva (LABTA).

Jorge trabalha em um projeto pessoal – há 10 anos – para criar uma prótese mecânica mais acessível para os pacientes com amputação parcial de mão. O projeto se tornou parte de sua tese de doutorado aprovada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa) e hoje, 28 modelos experimentais depois, o professor alcançou um protótipo leve, prático, barato e que pode ajudar centenas de pacientes no Pará e provavelmente no Brasil.

De acordo com Jorge, uma prótese normal pode custar até 10 mil reais, enquanto a alternativa desenvolvida por ele terá o valor médio de 200 reais. “Eu desenvolvi essa prótese em casa, na minha oficina, desenhando cada peça e cada parte para que ela pudesse utilizar o movimento do pulso e distribuir a força para o movimento de pegada entre os quatro dedos da frente e o polegar. Com a prótese atual é possível pegar desde uma garrafa até mesmo objetos menores, como um grão de feijão”, explica o professor.

O modelo, apelidado de Mark 28, em homenagem às armaduras do Homem de Ferro, é feito de papelão, fibra de vidro, alumínio, couro e espuma. Ele ainda não pode ser produzido para o atendimento de pacientes, pois aguarda o processo de patente, no entanto, o professor doará um modelo personalizado da Mark 28 para a jovem Alcione Viana, 24, que há dois anos perdeu quase toda a mão direita em um acidente de trabalho.

Alcione será acompanhada por Jorge, ao longo deste ano, para demonstrar os benefícios que sua prótese pode trazer. Ela é uma das pacientes atendidas pelo LABTA, que fabrica órteses e próteses para pacientes que sofreram amputação ou possuem má formação congênita em alguns dos membros.

Primeira experiência

Depois de conversarem sobre a oportunidade de experimentar a prótese, Alcione topou a ideia e na primeira sessão ela mal podia conter o sorriso. O braço tímido e magro se encaixou na mão mecânica vermelha, as fivelas foram ajustadas e com um simples movimento de pulso ela viu sua nova mão abrir e fechar. “Eu não acreditei. Era um pouco incômodo, mas depois eu me acostumei. Eu comecei a usar nos exercícios e eu sentia que era como se fosse a minha própria mão, pois eu ainda a sinto. Sinto dores, choques, mas com o uso da prótese eu me sinto mais próxima do que era antes. Às vezes é como usar uma luva”, diz a paciente.

A felicidade de Alcione fica ainda maior quando ela se lembra de tudo pelo que passou. Foram dois anos de depressão. Ela perdeu a mão em um moedor de carne, na empresa em que trabalhava. Ela relembra que quando acordava, nos dias seguintes à cirurgia de amputação, sonhava e pedia a Deus para que sua mão voltasse. Sozinha e enfraquecida, ela quis desistir de tudo.

“Eu estive muito mal e me senti muito abandonada. Mas tenho um amigo que me indicou o laboratório e eu decidi tentar. Hoje eu sinto que tudo é possível, que eu posso recuperar a minha vida e assim que esta mão ficar pronta eu vou poder recomeçar”, diz Alcione, que hoje é uma mulher com muito mais esperança no olhar.

Para o professor, o exemplo do que ocorrerá com Alcione pode se tornar uma realidade na vida de diversas pessoas que possuem lesões semelhantes. “Além das vítimas de acidentes, temos os pacientes de hanseníase e má formação. A ideia principal é conseguir viabilizar próteses mais práticas e mais baratas para a população mais pobre”, explica o professor.

Produção

No momento, o professor negocia com a Fapespa para definir os detalhes sobre a patente do invento. Quando estiver aprovada, ele poderá fabricar as mãos mecânicas sob encomenda, da mesma forma como desenvolveu uma peça exclusiva para Alcione. A futura oficina funcionará no LABTA e terá a participação de uma equipe de alunos do curso de Terapia Ocupacional treinados para lidar com esta produção.

Ainda no mês de abril, a Uepa fez uma solicitação para o governo federal para a aquisição de uma impressora 3D, que agilizaria e melhoraria ainda mais o desenvolvimento destas próteses.

“Nós podemos construir sem a impressora, no entanto, com uma máquina dessas a nossa disposição, nós poderíamos desenvolver softwares muito mais precisos para a produção de peças e montar modelos mais rápidos e mais adequados aos nossos pacientes. Nós acreditamos que teremos uma grande demanda, não apenas no Pará, mas também, de outros Estados”, detalha o professor.

Fonte: Crefito9

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