PROJETOS DE PESQUISA EM FISIOTERAPIA PEDIÁTRICA E NEONATAL

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Maior destaque da fisioterapia pediátrica e neonatal nos últimos anos já resulta em expansão da produção do conhecimento, mas ainda existem desafios

Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs), organizados nas próprias instituições onde são realizados estudos, e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), vinculada ao Conselho Nacional de Saúde, são responsáveis por avaliar as pesquisas científicas produzidas no Brasil do ponto de vista ético. Atualmente, as pesquisas que são apresentadas ao sistema CEPs/CONEP podem ser consultadas através da internet pelo Sistema Nacional de Informações sobre Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos (SISNEP). Esse banco de dados foi a base utilizada por Cybelle Oliveira, especialista em fisioterapia pediátrica e neonatal, para investigar a produção científica nacional na área de fisioterapia, mais precisamente em fisioterapia pediátrica e neonatal.

O estudo em questão foi desenvolvido durante a pós-graduação de Cybelle em fisioterapia pediátrica e neonatal – da UTI à reabilitação neurológica no Centro de Estudos Avançados e Formação Integrada – CEAFI, Goiânia (GO) sob orientação do Prof. Dr. Giulliano Gardenghi.

O trabalho resultou no artigo “Análise quantitativa da submissão de projetos de pesquisa científica realizados em Fisioterapia Pediátrica e Neonatal cadastrados no sistema CEP/CONEP de 2002 a 2010”, publicado este ano na revista ASSOBRAFIR Ciência, 3(1):33-43.

Segundo o artigo, ao analisar 185.275 projetos, Cybelle identificou que 18.508 eram em fisioterapia. Desse total, 1.637 pesquisas (8,8%) eram de fisioterapia pediátrica e neonatal. A autora contou na publicação que, embora o volume de pesquisas produzidas nessa área ainda seja pequeno, ela observou uma forte tendência de crescimento nos últimos nove anos. Além disso, a pesquisa mostrou que a produção científica nesse campo ainda é mais concentrada na Região Sudeste (42,2%) e a maioria dos estudos foi realizada em nível terapêutico (26,4%), seguida do preventivo (23,7%). As pesquisas ainda concentram-se, portanto, em atenção secundária e terciária. Para Cybelle, a carência de estudos na área de fisioterapia pediátrica e neonatal “se dá por alguns fatores limitantes, mas importantes, e outros decorrentes do próprio crescimento da fisioterapia pediátrica e neonatal”, disse em entrevista ao Programa de Atualização em Fisioterapia Pediátrica e Neonatal: Cardiorrespiratória e Terapia Intensiva (PROFISIO Pediátrica e Neonatal: Cardiorrespiratória e Terapia Intensiva). Segundo ela, ainda há um número pequeno de profissionais atuantes em fisioterapia pediátrica, quando se compara às outras áreas de fisioterapia, pois foi somente nos últimos anos que essa especialidade passou a ganhar maior reconhecimento. “Com o aumento de profissionais atuantes nessa área, mostrando toda sua importância junto à equipe multiprofissional, e um consequente crescimento de profissionais especializando-se e aprofundando o conhecimento em fisioterapia na pediatria e na neonatologia, aumenta-se também a produção científica, o que é de extrema importância para a profissão”, considera.

Outro fator que limita os estudos nessa área, segundo Cybelle, é a fragilidade dos pacientes. “Tratar crianças e bebês frágeis exige toda uma especificidade e um cuidado diferenciado, para que sejam preservados ao máximo. Aqui a prevenção de todo e qualquer dano que possa atingi-los(as) é vital. Isso dificulta bastante a manipulação e aplicação de técnicas novas nas crianças e bebês, principalmente quando falamos em neonatologia”, afirma.

Um terceiro fator relevante, de acordo com a pesquisadora, são os cuidados éticos nas pesquisas científicas com seres humanos que devem seguir a Resolução CNS 196/96. Cybelle destacou que, nesse contexto, a aplicabilidade dos requisitos dispostos na Resolução esbarra no fator mencionado acima, a fragilidade das crianças e bebês. É importante lembrar ainda que o pai ou responsável legal é quem assina o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) para a inclusão da criança ou bebê no estudo, uma vez que este já tenha sido aprovado pelo CEP. Ocorre, entretanto, que muitas vezes os pais ou responsáveis legais “motivados pelo medo e pela fragilidade da situação, não autorizam a participação da criança/bebê naquela pesquisa. Isso pode gerar uma amostragem muito baixa e pouco significativa ou até mesmo representar a não efetividade daquela pesquisa, que se torna então cancelada”, explica.

Para a autora, é preciso citar ainda um quarto fator que pode explicar a pequena produção científica na área: o desequilíbrio entre o que se produz e o que se publica. “Publicar um artigo científico não é fácil, mas é necessário. Nossa visão a respeito de produção de pesquisas está mudando muito, e para melhor. Acho que esse desequilíbrio vai diminuir”, disse.

Com relação à concentração de estudos na Região Sudeste, Cybelle afirmou que, de forma geral, a produção de conhecimento científico nessa e em outras áreas ainda é predominante nessa localidade. Considerando a fisioterapia, ela lembra que é nessa região que há maior quantidade de fisioterapeutas e mais instituições graduando e ‘pós-graduando’ profissionais nesse campo. “Regiões que evoluem de forma menos ágil e expressiva precisam acompanhar os progressos da categoria profissional, dos novos métodos, novas técnicas e novas possibilidades de tratamento para que a oferta e qualidade dos serviços de fisioterapia pediátrica e neonatal não fiquem defasadas. Se uma dada região não possui condições suficientes para produzir cientificamente muita coisa, seus profissionais devem, no mínimo e, a princípio, se atualizar e buscar esse conhecimento fora, para que sua prática não se baseie apenas no empirismo. E a forma de ele ter acesso às inovações vai ser justamente através da publicidade no meio científico, expandindo conhecimento e qualidade no fornecimento dos serviços”, defende.

Para Cybelle, entretanto, já está havendo uma mudança com relação à centralização do conhecimento, pois “regiões como Centro-Oeste e Norte já se abriram também pra essa realidade e, em suas proporções, já começaram a mudar esse cenário”.

Se por um lado parece que o país começa a caminhar para a produção de conhecimento mais descentralizada, ainda é necessário avançar com relação ao modelo de política pública de saúde adotado. Para Cybelle, o Brasil ainda se volta muito para a atenção secundária e terciária. “É mais do que evidente as novas necessidades, nem tão novas assim, mas latentes na saúde pública. Vivemos um sistema falido onde a demanda não acompanha nem de longe a oferta. E isso não se resume apenas à fisioterapia pediátrica e neonatal, mas todas as áreas da saúde, sem exceção”, defende a autora.

Hoje em dia, as pessoas vivem mais, e os bebês estão nascendo cada vez mais cedo e com muito baixo peso; porém, com os avanços tecnológicos e na medicina, estão sobrevivendo mais também. “Nossos bebês estão tendo cada vez mais condições de vida, mas muitas situações de prematuridade ou de dano neurológico poderiam ser evitadas com um pré-natal adequado, minucioso, atento. Muitos problemas neurológicos poderiam ser evitados se tentassem economizar menos os partos cesarianos, quando as condições maternas impossibilitam efetivamente a passagem do bebê em um parto normal. Muitas condições poderiam ser amenizadas ou eliminadas se esses bebês muito pequenos e de baixíssimo peso tivessem um acompanhamento pós-UTI e pós-hospitalar adequados, frequentes, pelo menos até os dois anos, um programa de follow up, por exemplo. Cuidados higiênicos previnem infecções. Estudos epidemiológicos nas comunidades poderiam evitar doenças precárias em muitas crianças. Poderia dar vários exemplos da importância da atenção primária de saúde”, destacou a pesquisadora.

Nesse sentido, Cybelle lembrou que a produção de ciência que demonstre e comprove a efetividade e economicidade de se tratar preventivamente os pacientes em fisioterapia também contribui para mudar a cultura de curativa para preventiva.

Mas, outra questão relacionada à produção científica é justamente a dificuldade de migrar o conhecimento produzido nessa esfera para a prática. Para Cybelle, dois fatores dificultam esse processo. Primeiro, a dificuldade de romper a barreira do “novo”, que muitas vezes leva a uma insegurança por parte dos profissionais em geral e, em segundo lugar, ela destaca a motivação em buscar o conhecimento científico e a atualização constante. “Nem tudo que se publica é significativo e/ou aplicável. Mas, sem sombra de dúvidas, os artigos científicos sempre estarão um passo à frente de nossa literatura, pois eles possuem a característica de seres mais dinâmicos, enquanto os livros, importantes para a nossa base de conhecimento, precisam de anos para serem publicados”,  considerou.

Ela acredita que “as pesquisas científicas são produzidas justamente para unir o conhecimento à prática e, dessa união, obter os melhores resultados possíveis aos nossos pacientes, sejam eles na pediatria, neonatologia ou demais áreas. Vamos quebrar a resistência e ultrapassar essa barreira! Eles merecem esse nosso cuidado e atenção”.

Fonte: Agência notícia Artemd

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