TÉCNICA DE CROCHETAGEM (CROCHETAGE – THÉRAPIE )

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Introdução

A fisioterapia evoluiu muito nos últimos anos e se estabeleceu enquanto profissão, com atuação reconhecida e métodos terapêuticos consistentes. Isto se deve tanto ao desenvolvimento e validação de suas técnicas, através de publicações e estudos, quanto à capacitação de seus profissionais.

Entre as várias especialidades da fisioterapia, observa-se uma diversificação de técnicas principalmente para o tratamento do sistema musculoesquelético. Somos apresentados a um número cada vez maior de técnicas de terapia manual, como Rolfing, Conceito Sohier, Maintland e Myofascial Release, para citar algumas.

Para os profissionais que se interessam pela terapia manual, propomos um “utensílio” a mais, não para substituir as técnicas que já utilizam, e sim para somar e diversificar sua abordagem terapêutica.

Histórico

A crochetagem é uma técnica de tratamento elaborada pelo fisioterapeuta sueco Kurt Ekman nos anos 70. Inspirando-se nos trabalhos de Cyriax, Ekman buscava um modo de trabalhar as estruturas de maneira mais apurada, profunda e precisa. Teve a ideia de criar ganchos (crochets) de diferentes curvaturas, cuja extremidade terminava em uma espátula. Estes instrumentos, permitiam acessar o espaço entre os elementos a liberar, inacessíveis à mão devido à espessura dos dedos.

Definição

É um método não invasivo que permite liberar de modo preciso os planos de deslizamento interteciduais.

A crochetagem é indicada em uma grande diversidade de afecções em que há alterações teciduais, sejam elas de origem traumática, inflamatória ou relacionadas a neuropatias periféricas de compressão. É também bastante utilizada para o tratamento de disfunções associadas a prática esportiva.

A boa prática da Técnica de Crochetagem implica em uma abordagem palpatória rigorosa e precisa.

Prática

A técnica consiste em interpor a espátula do crochet entre as separações (cloisons) musculares ou ligamentares, com o objetivo de restaurar os planos de deslizamento tecidual.

Sua aplicação segue os seguintes princípios:

  1. 1) Um conhecimento adequado da anatomia palpatória de cada região, que permita a identificação precisa dos tecidos de separação (cloisons) envolvidos
  2. 2) Um exame manual minucioso para localizar alterações de mobilidade tecidual
  3. 3) Abordagem centrípeta da lesão e respeito às regras de utilização dos crochets, tanto pela mão instrumental quanto pela mão palpatória

Crochets

Crochets de cor neutra e com aspecto pouco agressivo confeccionados em poliamida. As propriedades deste material (memória de forma) permitem a transmissão de informações suplementares sobre modificações produzidas nos tecidos. Como consequência, a prática de crochetagem é agradável para o terapeuta e confortável para o paciente.

Dispomos de quatro crochets clássicos e um quinto crochet “especial para a coluna”, o que nos permite abordar todas as zonas anatômicas.

Técnicas associadas:

  • Liberação intertecidual Passiva (LIP)

Esta técnica foi desenvolvida por Jean-Yves Vandewalle. Ela resulta de sua formação em diferentes técnicas (canadenses e americanas) e de suas pesquisas para potencializar os efeitos da crochetagem e melhorar o deslizamento intertecidual permitido pelo MCDAS*.

A LIP consiste em efetuar um ponto fixo manual sobre o músculo em posição encurtada, na direção da inserção proximal, e depois, colocar este músculo passivamente em posição alongada. Isto leva a um deslizamento entre o músculo implicado e os músculos adjacentes e, também, com os elementos teciduais do plano subjacente.

A restrição tecidual pode provocar igualmente, em função do caso clínico, um alongamento intrínseco do corpo muscular durante o alongamento passivo.

A técnica pode ser repetida várias vezes, deslocando-se a restrição tecidual no sentido próximo-distal.

A LIP se pratica após a realização da crochetagem, a fim de potencializar seus efeitos sobre os planos de deslizamento. Ela pode também, em função do exame, se integrar no protocolo de tratamento antes de um alongamento ou de uma liberação de cadeia muscular, com o objetivo de liberar os pontos de fixação responsáveis pelas perdas de mobilidade.

Esta técnica permite acessar especificamente os planos fasciais profundos, nos quais se encontram os elementos vasculonervosos. Logo, é uma técnica de escolha no tratamento das neuropatias periféricas de compressão (ciatalgias, nervo mediano, etc…). Promove, acessoriamente, um alongamento específico do músculo implicado quando o terapeuta não pode mobilizar nas amplitudes articulares máximas (após entorse, lesão de LCA, etc…)

  • Técnica de Inibição Fusal (TIF)

Esta técnica se aplica aos músculos que não são acessíveis à crochetagem devido sua situação anatômica (poplíteo, pectíneo, subescapular, etc…). Ela também pode ser interessante para os elementos musculares apresentando tensões reflexas que alteram o deslizamento entre os planos teciduais.

É uma técnica funcional que permite liberar o arco reflexo automantido, por um desregramento do fuso neuromuscular (FNM), o qual mantém o músculo em tensão.

Colocamos o músculo em posição de encurtamento completo com o objetivo de limitar ao máximo a tensão no seio do FNM.

Realizamos um apoio manual sobre um ponto reflexo localizado no ventre muscular, o qual serve, sobretudo, de ponto monitor para controlar o relaxamento muscular. Adicionamos um componente de compressão no eixo do segmento para aumentar ainda mais este relaxamento, relaxamento este necessário para o sucesso da técnica.

Em seguida, mantemos a posição até a liberação completa do espasmo muscular devido ao equilíbrio das fibras intrafusais. Para finalizar, retornamos o segmento passivamente em posição neutra.

A TIF apresenta similaridades com a técnica de Jones, na qual ela foi inspirada. Entretanto, há algumas diferenças significativas:

Manter a posição até perceber o relaxamento tecidual e não 90 segundos. O tempo necessário para a inibição depende do tempo de duração da tensão reflexa e da experiência do terapeuta.

Não é o terapeuta que apoia sobre o ponto reflexo e sim, o contrário. O terapeuta coloca o ponto reflexo em contato com seu apoio manual e adiciona um componente de compressão.

Estes dois fatores tornam a técnica menos dolorosa e, como consequência, favorecem o relaxamento muscular e a eficácia da técnica.

A TIF não utiliza o reflexo cutâneo visceral, contrariamente à técnica de JONES ou de CHAPMAN.

Tratamento da Fascite Plantar

Os músculos intrínsecos do pé podem apresentar restrições de mobilidade. Estas restrições são aumentadas pelos diferentes problemas posturais do pé, mas também, do corpo como um todo.

Certos esportes são geradores de tensões específicas da abóbada plantar devido a microtraumatismos repetidos (corrida de longa distância), a solicitações específicas do pé (ginástica rítmica, salto em distância) ou, ainda, ao calçado.

    1. 1º) Realizar um exame manual minucioso:

Localizar os músculos

      • flexor curto dos dedos
      • abdutor do hálux
      • flexor curto do hálux
      • abdutor do dedo mínimo
      • flexor curto do dedo mínimo

Avaliar os tecidos de separação (cloisons) entre estes músculos em busca de tensões reflexas e/ou restrição de mobilidade (“colamentos”).

Com frequência, encontramos pontos muito doloridos ao longo do tecido de separação entre o flexor curto dos dedos e o o abdutor do hálux, perto das suas inserções sobre o calcâneo.

  1. 2º) Escolher o crochet com a curvatura adequada para a região a tratar.
  2. 3º) Abordagem centrípeta da lesão (na direção do calcâneo).
  3. 4º) Posicionar a espátula do crochet paralelamente entre os dois músculos a tratar e no mesmo nível do dedo indicador da mão palpatória.
  4. 5º) Criar uma “onda” tecidual com a mão palpatória e efetuar uma tração suplementar com o crochet no final do movimento, sem deslizar a espátula.

A crochetagem desta zona se revela muito eficaz, mas é necessário respeitar a dor do indivíduo que pode ser muito aguda.

Após a realização da crochetagem, podemos aplicar as técnicas complementares:

A Técnica de Inibição Fusal (TIF®) para o abdutor do hálux.

A Técnica de Liberação Intertecidual Passiva (LIP®) para o flexor curto dos dedos.

Fonte: tecnicadecrochetagem

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